Especial Capítulos Únicos

CAPITULO ÚNICO








 Esteban San Roman. Você e essa sua mania de querer carne nova. Eu devia saber que isso aconteceria, não? Mas a esperança é um defeito que eu não posso evitar. E mesmo assim...um final feliz para os dois?




- Voltas da Vida -



Se eu soubesse que tudo acabaria assim eu nem ao menos teria te levado àquela festa de final de ano boba na casa da Fabiola.

Naquela época nós ainda estávamos "juntos" como sempre estivemos, mas tinha a  [voz de nojo] “Mariasinha”.

Eu sabia que você gostava de "carne nova", mas não pensei que fosse tanto.

Vendo vocês agora na parada de ônibus, deixando o pequeno Angelo. Sinto uma raiva que eu mesma não posso explicar.

Eu que deveria estar ao seu lado.

Esse menino deveria ser o nosso filho, Esteban.

Quem sabe ele poderia puxar você e ser assim mesmo. Lindinho, olhos claros. Mas quem sabe se ele não puxaria um pouco de nós dois?

Cabelos castanhos e olhos verdes?

O que você acha, Esteban?

Vendo vocês assim, lado a lado, eu só posso lembrar o dia em que se conheceram. E pensar que foi tudo culpa minha, mesmo que involuntariamente.

Nós não estávamos bem naquela época, nós nunca estivemos, mas se ela não tivesse aparecido talvez eu tivesse me tornado a Senhora San Roman, não teria?

Porque você sabe, Esteban, que não havia ninguém mais fiel a você do que eu.

Ninguém.

Mas eu fiz o que fiz e estou pagando por isso.

Pagando pela burrice de chamá-lo para a casa de Fabiola só porque eu estava entediada de ficar lá sozinha.

Pagando pela burrice de chamá-lo para aquela festa, achando que você não teria nada melhor para fazer. E nunca me arrependi tanto de ter acertado em alguma coisa na vida.

Lembro como se fosse hoje.





Você chegou à casa de Fabiola Greengrass mais parecendo um presente de natal de tão arrumado que estava ao lado dos seus pais. Eu sorri pra você como uma completa idiota e corri na sua direção.

Mas meu sorriso logo murchou quando notei que você cumprimentava alguém, e quando vi também aquele maldito sorrisinho, que você só guardava para a Ana Rosa, surgir no seu rosto.

Olhei para a mão que estava na sua e subi o olhar devagar. Mão, braço, uma alça fina de um vestido vermelho, algumas sardas e o rosto. Ela tinha os olhos de gata como os seus e era tão lindinha quanto você.

Vocês juntos eram uma cópia perfeita dos seus pais.

Finalmente quando você me viu, eu sorri e acenei. Mas não passou disso, lembra? Você continuou conversando com a “Mariasinha”.

E, tolamente, só percebi o quanto o tinha perdido quando Fabiola passou ao meu lado e sussurrou:

- Acho que o San Roman gostou da minha irmãzinha, Maria.

Ela tinha o mesmo sorrisinho cínico de sempre, só que tinha um brilho nos olhos ao dizer aquilo que eu não gostei.

- Não enche, Fabiola.

Foi o máximo que consegui responder antes de sair correndo dali. Eu não queria mais ser vista por você.

A festa continuou sem que eu notasse.

As suas atenções continuaram nela durante todas as horas daquela festa. Enquanto eu, como uma criança que perde o brinquedo preferido, fiquei ao lado da lareira, agachada, observando as chamas crepitarem.





Depois daquele maldito dia você não parava de perseguir Fabiola. Aonde quer que ela fosse, lá estava você.

E o assunto era sempre o mesmo: Maria.

Maria.

Maria estivera bem debaixo dos nossos olhos e nós nem mesmo a percebemos.

Era irmã mais nova de Fabiola e tinha quinze anos.

Mesmo depois que você descobriu isso, ainda sim continuava a perguntar a Fabiola sobre a irmã e sempre que a menina se aproximava você saia.

Era bem típico de você, não era?

Essa brincadeira de gato e rato antes de dar o bote.

Você sempre procurava informações sobre suas "vítimas" antes de começar a agir.

Era sempre assim.

Acho que foi por isso que você não se interessou tanto por mim.

Eu cometi o erro de lhe dar todas as informações sobre mim, sem me importar com o depois.

Eu me oferecera como aliada, sem esperar nada em troca.

Pelo menos era o que eu pensava na época, mas com o passar do tempo, com os seus encontros com a Ana Rosa e agora Maria, eu via que só estava tentando enganar a mim mesma.

Nada em troca. Quase rio só de pensar em uma tolice como essa.

Depois de todo o trabalho que tive, de me arriscar por tantas vezes, a única coisa que eu queria, e achava que merecia, em troca era você.

Mas não basta querer, não é San Roman?

Tem que merecer estar ao seu lado. Tem que se encaixar nas suas malditas preferências.

Eu teria que ser completamente doce, não tão completamente ingênua e bastante esperta.

Esperta eu sou, ou pelo menos achava que era, mas quisera eu ter as duas primeiras e tudo estaria resolvido.






- Flores pra você, maninha.

Baixei o livro que estava lendo e vi Fabiola entregar um buquê de rosas vermelhas a irmã mais nova e se sentar ao seu lado.

- De quem?

- Me diga você.

Logo a pirralha estava à procura do cartão, e quando o encontrou deixou que um gritinho escapasse.

Fico me perguntando por que toda "boa" moça tem que ter uma reação dessas ao receber um buquê. Elas são tão previsíveis que tenho vontade de vomitar toda vez que vejo uma coisa assim.

- É do Esteban.

Esteban. Tanta intimidade assim. Senti meu estômago dar voltas.

- E o que ele quer dessa vez?

Fabiola parecia tão cansada quanto eu. Finalmente alguém mais reconhecia que os joguinhos de Esteban só podiam empolgar "boas" moças como Maria.

Aquilo tudo era bem cansativo.

Voltei a ler o livro, mas não deixei de ouvir a conversa.

- Ele quer se encontrar comigo agora.

- Ele quer é colocar você em apuros. Passe pra cá esse cartão.

Alguns segundos de silencio se passaram e eu pude sentir meu peito apertar com isso. Eu tive vontade de jogar o livro pro alto e me juntar a elas. Mas eu não daria esse gostinho a pirralha, pouco me importava o que San Roman queria com ela.

- San Roman andou bebendo muita cerveja na última visita ao bar.

Ouvi Fabiola dizer e vi-a, por detrás do livro, entregando o cartão a irmã.

- Não me importa o que você acha, eu vou.

Típico. Boas moças sempre se arriscam para verem seu admirador.

- O pescoço é seu.

Pouco tempo depois ela sairia, Fabiola subiria e eu seguiria a mais nova.

Você tinha marcado um encontro com ela fora da escola. Perto das estufas, pelo que li no cartão.

Em tempos como aqueles fazer aquilo era o mesmo que arriscar o pescoço por pouca coisa, quase nada.

Eu a segui e ela nem ao menos percebeu.

Pé ante pé eu a segui. Quando passamos pelos portões que davam para os jardins e seguimos para as estufas meu coração deu um salto.

Você estava lá. Lindo. Parado ao lado da estufa onde tínhamos as aulas de Matemática, aquele sorrisinho que você só guardava para elas no rosto.

Vocês conversaram sobre alguma coisa que eu não pude entender bem do lugar em que estava.

Mas eu não precisei escutar o que vocês diziam. Pelos sorrisos que ela dava e pelo desconcerto que eu via estampado no seu rosto, você estava se declarando pra ela.

Eis uma coisa que eu nunca tive e nem terei em minha vida, Esteban San Roman: uma declaração amorosa sua.

E acho que junto comigo eu posso incluir a Ana Rosa, não?

Você só a "amou" porque queria atingir o Salgado. Mas quando eles enfim se acertaram você a dispensou como faria com qualquer uma.

Mas com Maria as coisas pareciam diferentes, não?

Afinal, eu nunca vira aquele brilho nos seus olhos.

Eu nunca vira aquele sorriso que você exibia agora que vocês estavam prestes a se beijar.

E você nunca me abraçara daquele jeito. Como se o mundo fosse acabar ali mesmo.

Ela ganhara você, não ganhara?

Ela o tinha como nenhuma outra.

Sai dali antes que vocês se separassem.

Em poucos minutos eu estava no dormitório, agarrada ao travesseiro e chorava mais uma vez por você.






Aquela descoberta doera e doeria por todos os anos que se seguiram.

Eu só queria saber de uma coisa.

Apenas uma.

Você se lembra de mim, San Roman?

Lembra quem era a sua fiel companheira? Aquela que sempre esteve ao seu lado quando ninguém mais queria estar?

Aquela que daria a vida por você?

Mas isso não contava.

É claro que não contava.

Afinal era por ela que você seria capaz de dar a sua vida.

Você não costumava se importar com ninguém.

Tudo o que importava pra você era ser melhor do que Salgado.

Vencer Salgado.

Você nunca foi de se importar com ninguém.

Mas Maria mudou isso, não mudou?





Vi-o segurar seu rosto como se tivesse medo de que você se quebrasse e dei as costas para a cena. Não podia mais continuar observando aquilo.

Vocês nem ao menos sabem que estou aqui, não é?

Vendo vocês agora abraçados, enquanto observam o ônibus da escola sair e fazer o mesmo caminho tão conhecido por todos nós é mesmo muito estranho.

Quando eu poderia imaginar Esteban San Roman como um pai caloroso?

Bem diferente do que seu próprio pai fora?

O sorriso no rosto de Maria só comprovava aquilo que eu já estava cansada de saber.

Vocês eram felizes.

Mesmo quando o vi encarar o Salgado você não tinha aquele ódio no olhar. Foi quase como se eu visse dois amigos se encarando.

Era quase um pedido de desculpas silencioso.

Trocaram acenos de cabeça.

O Salgado se foi e vocês saíram dali apenas quando o ônibus não podia mais ser visto.

Eu fiquei observando o lugar vazio onde vocês haviam estado por todo aquele tempo.

Ainda podia sentir toda a felicidade de vocês ali.

Decidi que era hora de voltar pra casa.

Caminhei de volta a entrada da estação de Kings e senti um calafrio percorrer todo o meu corpo.

Apertei o casaco, tentando me livrar daquela sensação, mas não adiantou.

Eu estava com uma sensação estranha, como se alguém me observasse.

Virei à procura de alguém, mas nada.

Continuei caminhando e parei apenas quando cheguei à porta da minha casa.

Eu estava morando povoado desde aquele dia em que eu recebera a noticia de que você seria pai.






Eu tinha resolvido que passaria alguns dias em companhia de Fabiola.

Até hoje não entendo de onde partiu essa decisão suicida. Talvez da vontade de ter a companhia de alguém que não fossem os meus familiares, mesmo que esse alguém fosse irmã daquela que eu sabia que odiaria pelo resto da minha vida.

Foi em uma manhã de dezembro fria que a noticia veio e caiu sobre mim como uma tempestade de neve.

Eu estava no quarto lendo algum livro, do qual não me recordo o titulo, quando a porta fora aberta por Fabiola sem a menor cerimônia.

- E então o que era?

Perguntei sem tirar os olhos do livro.

- Tenho que ir para a casa dos San Roman visitar a minha irmã.

Três anos depois de toda aquela confusão de baile de formatura etc... Vocês tinham se casado.

Eu recebera o convite e respondera dizendo que não poderia ir, mas ainda assim compareci a cerimônia sem que vocês soubessem.

Você estava lindo e parecia extremamente nervoso. E por mais que eu a odiasse, eu tinha que admitir que Maria estava também.

Vocês formavam um belo casal.

Sai antes que a cerimônia terminasse e vocês percebessem minha presença.

Fabiola desde então costumava fazer visitas a mansão dos San Roman. Mas nunca, em todo aquele tempo, eu a vira com tanta pressa.

- Aconteceu alguma coisa?

- Angelo nasceu!

Deixei que o livro caísse das minhas mãos e pude observar apenas as costas de Fabiola saindo do quarto.

Esteban era pai.

O nome do menino tinha sido escolhido por Maria e Esteban quando ambos descobriram sobre a gravidez.

Arrumei minhas malas, deixei uma carta para Fabiola, e sai dali.







Senti um arrepio percorrer todo o meu corpo quando senti um peso em meu ombro.

Virei para dar uma ultima olhada e lá estava você.

- Maria, você se lembra...

- Eu não esqueceria de você mesmo que se passassem cem anos, Esteban.

Sorri.
Ele me pareceu um pouco confuso. O rosto agora mais adulto, mostrava que Maria havia conseguido tirar aquela sombra que sempre o rodeara.

- Esteban, eu tenho que entrar.

- Certo, mas antes eu queria te dizer uma coisa.

Será que ele ainda sente alguma coisa? A pergunta certa, acho, será que algum dia ele sentiu alguma coisa?

Fiquei com raiva de mim mesma por pensar daquele jeito. Quase vinte anos haviam se passado e eu ainda tinha esperanças de um amor que não floresceu mesmo quando eu tive chance.

- Pois não.

- Obrigado.

- Como disse?

Olhei para ele e vi o mesmo brilho no olhar que ele reservava apenas para Maria surgir.

- Obrigado. Por ter sido sempre a minha amiga naquelas épocas de colégio, quando éramos da mesma turma, e você me dava lições de moral a cada namorada nova, e morria de ciúmes, como se eu fosse seu irmão mais velho e protetor.

Então ele lembrou.

- Sim. Disse sim.

- Então. Todos esses anos eu estive a sua procura pra agradecer por tudo, vêla.

- Ah, não tem o que agradecer. Precisando [rimos ele sinceramente\eu totalmente sem graça]...

Virei na direção da porta. Coloquei a chave na maçaneta e a girei.

- Quer entrar?

Vi-o se aproximar e suspirei. Mais calafrios, mais esperanças infundadas. Mais raiva.

- Não, Maria está me esperando.

Maria.

Maria.

Maria.

Sempre ela.

Olhei para a mulher que o esperava alguns passos de distância e acenei quando ela me cumprimentou com um aceno de cabeça.

- Certo. Então até outro dia?

- Até.

Ele se aproximou mais e depositou um beijo em meu rosto, sussurrando logo em seguida:

- Foi bom te ver, Vitoria.

Sorri, vendo-o se afastar ao lado dela.

- De nada.

Respondi para mim mesma.

A essa altura eles não teriam escutado.

Entrei, fechando a porta logo em seguida.

Depositei o casaco em cima da poltrona e acendi as chamas da lareira.

Alguma coisa dentro de mim dizia que era apenas aquilo que estava faltando.

Durante todos aqueles anos eu precisava apenas do "Obrigado, foi bom te ver" dele para ser feliz.

- Antes a gratidão de Esteban San Roman do que o seu ódio [risos contidos].

- Falando sozinha, amor?

Olhei para o rapaz que surgia logo atrás de mim. Cabelos meio claros, olhos mais claros ainda.

- Apenas pensando alto.

Heriberto Ríos Bernal. Sem ele eu não teria suportado tudo isso.

Ele entrou na minha vida pouco tempo depois que eu deixei a faculdade.

Mas só agora, depois mais de dez anos, eu sentia que podia olhá-lo como ele merecia. Sem aquela sombra de San Roman a me assombrar.

E só então eu percebi, que naquela tarde chuvosa ao invés de ouvir o agradecimento de San Roman por nossas aventuras, mesmo ele sabendo que eu o fazia porque o adorava, deveria ser eu a agradecê-lo por permitir que Heriberto entrasse na minha vida ao me deixar livre, e não me ver como mais uma, porque eu seria isso, estava claro que a Maria era o amor de sua vida.




Fim.

Share this:

JOIN CONVERSATION

    Blogger Comment

0 comentários: