Para Sempre em Seu Coração CAP. 2


CAPÍTULO DOIS 2



 
...Uma esposa, pensou Esteban, com mau humor.
Isso era uma surpresa desagradável com que a me­mória o estava atraiçoando, como se ele ignorasse que essa era a mais vã aquisição na vida de um ho­mem. Embora tivesse apenas 27 anos, tinha a impres­são de que já sacrificara sua liberdade. Da mesma forma como o pai havia feito e o pai dele, antes: ca­sar-se cedo, para arrepender-se alguns milhões de­pois. Entretanto ele havia jurado para si mesmo que não cometeria o mesmo erro!
Tinha evitado envolvimentos pessoais complica­dos e havia mantido, em vez disso, amantes que leva­vam vantagem apenas entre os lençóis. Esteban tinha alta energia sexual, e tomava cuidado com ela. A sen­sualidade não devia ter controle sobre ele. Também nunca havia acreditado no amor. Portanto, o amor não podia, felizmente, ter nada a ver com essa mu­dança de idéia que tivera sobre o casamento.
Porém, algumas coisas ele não precisava ter me­mória para saber. Na verdade, ele as sabia por instin­to. A esposa, que sua mente indisciplinada tinha deci­dido esquecer, devia ser uma morena alta e elegante, porque esse era o tipo de mulher que o atraía. Devia ser de origem rica e de uma linhagem social impecá­vel, uma mulher de carreira profissional, banqueira ou mesmo economista, possibilidades que o consolavam um pouco. Talvez durante uma discussão sobre gerência de riscos e estratégia de investimentos tives­se encontrado uma companheira de alma profissio­nal, uma mulher pouco emocional e tranqüila, que respeitaria as exigências de sua agenda quando ele estivesse ocupado demais para vê-la.
Com a batida na porta, ele voltou a silhueta bem-feita, o quadril estreito, os ombros largos e o corpo alto, vestido por um terno de corte impecável, da ja­nela.
— Pode fechar os olhos antes de eu entrar? — per­guntou uma voz baixa com sotaque inglês. — Porque se não fizer isso eu vou provavelmente me sentir muito tola apresentando-me como sua mulher.
Choque número um... havia se casado com uma estrangeira com sotaque regional ao invés dos sons de vogais claramente aplanados da classe alta ingle­sa. Choque número dois... ela tinha um modo de falar de adolescente e fazia exigências infantis.
— Esteban? — exclamou María  diante do silêncio prolongado.
Uma impaciência rude fez Esteban apertar os dentes brancos. Ele percebeu que havia duas maneiras de jogar aquele jogo: podia expulsá-la com imprecações antes mesmo que ela atravessasse a porta, ou podia continuar no jogo até descobrir exatamente com quem estava lidando.
— Está bem...
— Suponho que esteja também muito nervoso quanto a essa situação, mas agora que estou aqui você não precisa mais se preocupar com nada.
De costas para a porta, deixando transparecer nos olhos verdes uma imensa descrença, Esteban percebeu que estava prendendo a respiração. Choque número três... ele havia se casado com uma mulher que ape­nas no espaço de 60 segundos conseguia hostilizá-lo e ofendê-lo tratando-o sem o respeito conveniente.
— Fiquei tão comovida de saber que estava per­guntando por mim no hospital... — disse María , en­trando apressadamente e fechando a porta atrás de si, e só então atrevendo-se a abrir os próprios olhos.
— Eu perguntei por você? — disse Esteban, com in­credulidade. — Como eu poderia se não me lembro de você?
— Meu Deus! O que está fazendo fora da cama? — perguntou María  atônita, esquecendo-se do que eles estavam falando.
— Diga-me: você costuma usar uma lista de co­mentários tolos ou eles vêm à sua mente automa­ticamente? — retorquiu Esteban com sarcasmo enquan­to se voltava para encará-la.
De pé e a apenas um metro dela, a mera altura de Esteban era ameaçadora. Ela teve que inclinar a cabeça para trás para olhá-lo direito e então, embora tivesse se encolhido diante daquela resposta ofensiva, não conseguia desviar a sua atenção dele. Sua boca ficou seca e a batida de seu coração acelerou porque diante dela estava ao vivo e respirando a personificação do homem de seu desejo e de seus sonhos.
A perfeita beleza máscula das feições finas dele afetou-a com uma força explosiva. Ela o achava extremamente bonito e ainda avassaladoramente sexy. Mas ele também possuía uma postura magnética de poder e de fria autoridade que ela podia sentir em sua medula.
Ele não sorriu e ela não se surpreendeu com isso. Seu sorriso carismático era algo raro e a frieza que se sentia ali no quarto era acentuada. E ela podia entender...
— Não gosto de sarcasmo — falou María , erguen­do o queixo.
— E eu não gosto de perguntas tolas.
Esteban percebeu que tinha que abaixar o ângulo de seu olhar para poder observá-la. Ela era pequena, mas não do tipo parecido com boneca. Tinha bastante personalidade nos seus tenros vinte e poucos anos, no máximo, observou ele, cedendo com relutância a um certo fascínio. Seus olhos azuis eram da cor de um mar tempestuoso. Seus cabelos picotados eram de um brilhante prateado com reflexos rosados. Rosados? Devia ser um efeito da luz, pen­sou. Ela tinha uma tintura de sardas sobre o nariz e suculentos lábios vermelho-cereja que teriam tenta­do um santo.
Um nítido retesamento na virilha tomou Esteban de surpresa, pois ele já tinha passado há muito tempo da adolescência, quando seu corpo rejeitava controle dis­ciplinado. Mas na medida que sua atenção vagou para baixo, sobre o contorno do esplêndido corpo em forma de ampulheta de sua mulher, sua excitação se tornou mais pronunciada. Seios fartos e redondos estavam moldados por uma camiseta justa de algodão azul en­quanto o jeans acentuava sua cintura delgada e a pro­nunciada curva dos quadris altamente femininos.
Enquanto sua mente racional se esforçava para no­mear o "choque número quatro" no encontro com sua esposa, como a total falta de elegância em termos de moda exclusiva, seus hormônios estavam encanta­dos. Ele podia não se lembrar dela, mas a carga se­xual que ela inflamou nele falou bem mais alto que sua memória. Esteban sempre tinha que explicar o inex­plicável e ele estava agora satisfeito sobre o porquê de ter se casado com ela.
— Acho que você ainda devia estar repousando.
— Involuntariamente os olhos de María  se fixaram nos escuros verdes com brilho de esmeralda e qualquer pre­venção que tivesse se desvaneceu nesse diálogo mudo.
— Você tem o costume de me dizer o que fazer? — perguntou Esteban, esforçando-se para manter um tom de admoestação que terminou inexplicavelmente rouco.
— O que você acha?
Quando ela encontrou o olhar estonteante de Esteban, sua boca ficou seca e seu estômago se revolveu. A atmosfera ferveu e todo seu corpo saltou com uma percepção energizada. Não importa quanto tentasse, ela não conseguia aspirar oxigênio suficiente para encher os pulmões. Seu sutiã parecia muito apertado, seus seios, cheios e sensíveis. Seus mamilos con­traíam-se, rígidos e eriçados, reagindo ao calor sen­sual que estava inflamando bem no fundo sua pélvis. Sabia exatamente o que estava acontecendo com ela, e o pior é que era impotente para parar. Esse era, afinal, o homem que quase a havia levado a sucumbir ao nível degradante de oferecer sua virgindade sem compromisso, para um caso de uma noite só. Ela ha­via ansiado por Esteban a esse ponto terrível e se ele tivesse mostrado qualquer interesse, nenhum orgulho a teria feito recuar.
Exercitando a força de vontade que era a espinha dorsal de seu caráter, Esteban desviou o olhar absorto da esposa. Então finalmente ele entendeu por que tinha casado com uma garota sexy e cheia de juventude sem nenhuma elegância para se vestir: desejo insen­sato, desenfreado, ele classificou, com sua bela boca máscula endurecida.
— Uma mulher que tentasse me dizer o que fazer seria uma tola — murmurou Esteban com uma frieza calma mas cortante. — Estou certo de que você não se encaixa nessa categoria.
— Eu não sou manipulada facilmente também — informou María  a ele, teimosamente, com a fisiono­mia altiva. — Depois de tudo o que passou, você ain­da devia estar na cama.
— Eu não estou precisando mais de cuidados mé­dicos. Sinto muito tê-la preocupado, mas vou voltar para o escritório.
Os olhos dela se escancararam ao máximo possível.
— Você não está falando sério.
— Como raramente deixo de falar a sério, não sei por que você acha que agora seria diferente, nem por que pensa que preciso de sua opinião a esse respeito — disse Esteban, virando-se de costas num repúdio frio.
— Bem, quer deseje ou não, eu vou dar minha opi­nião — retrucou María , zangada. — Talvez você pense que é muito viril agir como se não houvesse nada de errado com você, mas eu apenas penso que isso é completamente estúpido!
Os escuros verdes dele brilharam de raiva.
—Eu...
— Você está sofrendo de uma perda de memória muito preocupante e não pensa direito sobre o que está fazendo...
Esteban levantou a orgulhosa cabeça.
— Eu nunca ajo sem pensar...
— Voltando para o trabalho você estaria querendo negar que exista sequer um problema. Eu não posso deixar você fazer isso...
— Diga-me uma coisa — refutou Esteban com uma clareza sardônica. — Antes do acidente de carro está­vamos em processo de divórcio?
— Não que eu saiba! — revidou María , com os olhos azuis brilhando de determinação e as peque­is nas mãos segurando os quadris para manter melhor o controle. — Você pode ser um homem muito inteli­gente, mas quando quer é também muito teimoso e extremamente intratável. Nesse exato momento é meu dever garantir que você não faça nada de que depois vá lamentar-se, portanto volte para aquela cama e trate de ter calma!
Com os olhos brilhantes realçados por longos cílios negros, Esteban a observou como se ela fosse uma mulher louca precisando ser controlada.
— Ninguém me diz o que devo fazer. Estou completamente surpreso que possa pensar que tem o di­gito de me impor seus pontos de vista.
— Ah, sim... o casamento é uma desculpa para seus caprichos de controle — revidou firmemente María , sem se impressionar. — Não vou pedir des­culpas por tentar proteger você de si mesmo. Se vol­tar para o banco, seus empregados vão perceber que há alguma coisa errada com você...
— Não há nada de errado comigo, apenas uma fase temporária de ligeira desorientação...
— Durante a qual você esqueceu de uma fatia bem grossa de sua vida passada! — María  completou in­flamada. — Eu acho que isso é bastante relevante e muito mais perigoso do que você quer admitir. Have­rá empregados e clientes que você não vai nem mes­mo reconhecer, situações que não vai entender e que você pode distorcer. Você está também cinco anos atrasado com seu precioso trabalho. A quem está pre­tendendo recorrer confidencialmente para evitar co­meter erros embaraçosos? Porque há uma coisa que eu sei sobre você, Esteban... que a única pessoa viva em quem confia é você mesmo!
Sem fôlego e tremendo pela força de seus sentimentos, pois ela estava consternada com a idéia de ele voltar imediatamente ao trabalho, María  olhou ferozmente para Esteban, desafiante. Mas rapidamente sua expressão mudou para uma expressão de ansieda­de quando ela o viu franzir a testa como se sentisse dor. Só então ela percebeu a aparência acinzentada de sua pele e o leve tremor de sua mão quando ele a ergueu até a cabeça.
— Sente-se... — Segurando a mão dele, María  o fez recuar em direção à cadeira de braços que estava atrás.
Esteban estava oscilando, mas ele ainda resistiu à sua tentativa de ajudá-lo.
— Mas eu não preciso...
— Nada disso, sente-se! — María  lançou-se sobre ele decidida e aproveitou seu equilíbrio instável para fazê-lo cair sobre a cadeira como uma árvore cortada.
Per meraviglia... — resmungou Esteban frustrado. — É só uma dor de cabeça.
Mas María  já tinha apertado o botão para chamar a enfermeira e a presença dessa terceira pessoa, logo seguida pela entrada do Dr. Caius, impediu Esteban de expressar sua fúria pelo fato de ela interferir e assu­mir o controle daquela forma.
De qualquer modo, Esteban havia percebido que sua esposa tinha o pânico estampado em toda ela. Ele viu que havia algo a ser dito a uma mulher cujo rosto parecia mostrar todos seus pensamentos verdadeiros. Os olhos dela estavam sombrios com o cansaço e a preocupação, e ela estava de pé humildemente no fundo do quarto, demonstrando o que ele considerava um respeito exagerado pelo pessoal médico, enquan­to mordiscava ansiosamente uma unha.
Ele não conseguia tirar a atenção de sua mulher roendo unhas. Ela parecia amedrontada por causa dele e estava tremendo. A preocupação com sua saú­de a devia ter feito gritar. Ela parecia ser apaixonada por ele. Ela podia também ser mais apaixonada ainda por sua imensa riqueza e por tudo que poderia com­prar, admitiu Esteban cinicamente, mas sem dúvida ela parecia nutrir algum grau de amor genuíno por ele. Esteban sabia que todas as mulheres eram terríveis atrizes, mas qualquer uma das amantes de que se lembra­va teria preferido passar por tortura a estragar uma unha.
Além disso, sua esposa não era nem simplória nem previsível como ele inicialmente havia presumido. Uma surpreendente dose de força e rebeldia escon­dia-se atrás daquela mimosa e curvilínea aparência feminina. Ele estava habituado com mulheres que di­ziam sim a todas suas exigências e se esforçavam por responder às suas expectativas antes mesmo que ele pudesse se dar ao trabalho de expressá-las. Ele nunca havia encontrado uma mulher que tivesse coragem de gritar com ele ou uma que se equiparasse a ele numa briga. Na verdade ele nunca discutia com ninguém. Nunca tinha tido que discutir. Discussões simples­mente não aconteciam com ele.
María  estava se sentindo imensamente, horrivel­mente culpada e perturbada. Esteban ainda estava so­frendo os efeitos secundários de um sério acidente e ela tinha perdido a paciência com ele. Como pudera fazer isso? Ela sempre tivera um temperamento equi­librado e uma natureza condescendente. O que acon­tecera com ela? Ao invés de calma, persuasiva e pa­ciente, foi emocional e acusadora. Ele tinha parecido surpreso. Ela sabia que Esteban não estava habituado a ser tratado aos gritos e não conseguia acreditar que tinha feito isso.
Respirando profundamente para se acalmar, ela o examinou. O coração dela saltava como se estivesse numa rede de acrobacia. O opulento cabelo cobre dele estava desgrenhado, seu perfil audacioso estava tenso, seus densos cílios negros desenhavam sombras sobre a pele sem brilho das maçãs do rosto. Ex­cessivamente bonito, ele tinha um rude apelo mascu­lino que fazia com que as mulheres o olhassem onde quer que fosse. Ele ainda a deixava sem fôlego. Da mesma forma que da primeira vez que ela o tinha visto, e a lembrança daquele dia, quatro anos atrás, a fez mergulhar de volta no tempo...
Falando em um telefone celular, Esteban tinha atra­vessado a porta do movimentado salão onde ela tra­balhava como esteticista júnior. Ao entrar, suas so­brancelhas cor de ébano ergueram-se, altivas e sur­presas, enquanto ele apreendia o ambiente. Ela logo compreendera que, como outros antes, ele confundira o salão com um outro muito mais exclusivo que havia algumas portas adiante na rua. Naquela fração de se­gundo em que ele estava a ponto de virar-se e sair novamente, alguma coisa a impeliu adiante. Alguma coisa? O fato de que ele era tão estupendamente boni­to que ela teria passado fome uma semana só para conseguir uma foto dele? Como explicar a necessida­de inacreditavelmente poderosa de impedi-lo de sair de sua vida?
— Logo que terminar o telefonema vou cuidar de seu cabelo — sugeriu María , plantando-se entre ele e a porta e esperando evitar que ele percebesse que ha­via se enganado.
Ele dirigiu a ela um rápido olhar perplexo, do tipo que demonstrava que ele na verdade nem a tinha vis­to e estava muito mais interessado na conversa ao telefone. Ela esperou que isso mudasse quando empunhasse as tesouras na frente dele. Na sua experiên­cia, que ela reconhecia que era limitada, os homens bonitos tinham bastante consciência de serem boni­tos e eram tão interessados quanto qualquer mulher em assegurar-se de que seu cabelo seria cortado exa­tamente segundo as suas exatas especificações.
— Faça o que precisa ser feito — disse Esteban, im­paciente.
Solicitado a dizer o que queria pela segunda vez, ele deu a ela uma orientação que parecia demonstrar que ele não esperava muito dela:
— É só aparar, nada mais.
Então ela apenas copiou o estilo conservador que o corte já tinha. Só de sentir seu viçoso cabelo seus dedos vibraram. Quando ele pagou pelo serviço, ela solicitou com insistência que ele não deixasse de voltar. Ele tinha acabado de sair quando ela notou o cheque de valor alto que supôs que ele tivesse deixa­do cair acidentalmente sobre a mesa. Ainda mais an­siosa, correu para a rua atrás dele.
— É apenas uma gorjeta — disse Esteban, num tom de desagrado, quando ela tentou devolver o dinheiro. Ele a olhava de cima de sua alta estatura quando uma limusine longa parou atrás dele e um chofer unifor­mizado desceu para abrir a porta de trás.
— Mas é muito... — murmurou ela, desconcertada pela visão da limusine e pela gorjeta tão alta.
Dando de ombros com uma recusa imponente, Esteban voltou-se e entrou no rico carro.
María  voltou para o presente e descobriu que en­quanto ela vagava perdida em suas lembranças Esteban conseguira voltar à cor natural e estava de pé nova­mente.
— Você pode ficar de pé? — perguntou María , vendo-o guardar o telefone que acabava de usar.
— Vamos para casa — comunicou Esteban, ignoran­do a pergunta.
Buscando apoio, María  olhou consternada para o médico.
— Dr. Caius?
O homem grisalho dirigiu-lhe um sorriso cons­trangido.
— Não existe razão para seu marido permanecer na clínica.
— Claro... E o outro problema vai passar — afir­mou Esteban com total confiança.
"Vamos para casa". Para casa? Céus, onde seria a casa? Pega totalmente desprevenida para o que se se­guiria, seguiu Esteban até o elevador que os levou até o térreo. Lá lhe informaram que a mala que ela deixara na recepção já tinha sido guardada no carro que os esperava.
— Então... Onde você estava quando meu carro bateu ontem? — perguntou Esteban um tanto secamente.
— Em Londres... bem... tenho um negócio lá — respondeu María  a meia voz, enquanto imaginava freneticamente o que fazer ou dizer a seguir, pois não tinha nada para se guiar. Nada era como achava que iria ser. Ele estava consciente, mas manquitolava e de alguma forma não era mais ele mesmo.
Uma limusine com vidros fume parou do lado de fora da clínica. Um chofer tirou o boné. Ela subiu e afundou em um confortável assento de couro. Lutou para não demonstrar seu espanto diante do luxo sur­preendente do interior do carro.
— Há quanto tempo estamos casados? — Esteban fa­lou pausada e suavemente.
Sem olhar para ele, María  respirou profundamente.
— Acho que tudo será mais suave se eu não o pres­sionar com fatos...
Esteban estendeu uma fina mão e apertou com seus dedos longos e seguros os dedos dela.
— Eu quero saber de tudo...
Surpreendida com a facilidade com a qual ele a ha­via tocado, María  não pôde evitar que seus dedos tremessem entre os dele.
— O Dr. Caius disse que contar coisas que você não precisasse realmente saber iria apenas complicar...
— Deixe que eu decida o que preciso saber — fri­sou Esteban sem hesitação.
— Acho que o Dr. Caius tem em mente seus me­lhores interesses e não quero arriscar sua recuperação indo contra a recomendação dele — disse María  in­segura e nervosa pois pela primeira vez estava fisica­mente perto dele.
— Isso não tem sentido.
— Em poucos dias você vai ter se lembrado de tudo por si mesmo — assinalou María  num rápido consolo, avaliando por quanto tempo mais aquela idéia iria confortá-lo. — Será melhor assim... muito melhor.
Em sua ansiedade de convencê-lo de que a paciên­cia era a melhor opção, María  finalmente se atreveu a erguer os olhos. Seus olhos se cruzaram com os escuros verdes e brilhantes dele. Sentiu a boca ficar seca e o coração bater loucamente.
— E a curto prazo? — perguntou Esteban em tom provocativo, com sua grave fala pausada.
Aquela deliciosa pronúncia rouca parecia fazer sua coluna vibrar sensitivamente até embaixo, crian­do uma reação em cadeia por todo seu corpo. O eletrizante brilho dos olhos dele quase paralisou-a. Sua mente estava em branco.
— A curto prazo? — ela repetiu como alguém que nunca tivesse ouvido essa expressão antes.
— Você e eu — explicou Esteban com uma risada baixa que fez o rosto dela ruborizar enquanto María  olhava para ele com olhos que pareciam ao mesmo tempo anuviados e brilhantes. — O que eu faço com uma esposa da qual me esqueci?
— Você não precisa fazer nada. Basta confiar nela para cui... cuidar de você — gaguejou María , lutando com todas as forças para ocultar sua embaraçosa falta de autocontrole em relação a ele. Por que ela estava aguardando por cada uma das palavras dele como uma escolar perdida de amor, por que sentia-se im­pressionada como uma fã de algum astro? Furiosa com a própria fraqueza, cogitou que seu papel devia ser o de uma amiga que dá apoio, nada mais nada menos. Mas a mera emoção de estar a sós com Esteban parecia deixá-la fora de si.
— Cuidar de mim? — Esteban a estudou fitando-a sob os cílios negros. Ela estava planejando cuidar dele? Ele achava que em toda sua vida jamais ouvira nada mais ingênuo ou ridículo. Mesmo assim ele não disse nada porque ela irradiava sinceridade e boas intenções.
— É para isso que estou aqui... — continuou María , quase sem voz; suas cordas vocais estavam amea­çando traí-la! A proximidade dele e a confiança casual com que Esteban a tocara estavam fazendo seu cére­bro ter uma pane.
Logo que ela falou, Esteban levantou uma das mãos para fazer o dedo indicador percorrer todo o suculen­to e macio lábio inferior rosa de María , o que não contribuiu para baixar a temperatura dela. Na verda­de, onde ele a tocava a pele parecia se retesar com uma sensação tão aguda que era quase dolorido expe­rimentá-la. Encostando-se mais nele sem sequer perceber, María  deu um imperceptível suspiro, enquan­to seus mamilos se enrijeceram, formando doloridos pontos distendidos sob a blusa.
— Você está tremendo — murmurou Esteban com voz rouca. — Mas por que não? Essa é uma situação estimulante.
— O que você disse? — sussurrou María , conven­cida de que havia ouvido mal.

— Uma esposa de que me esqueci... — gracejou Esteban, observando-a com olhos brilhantes como um rio. — Uma mulher com quem devo ter partilhado muita intimidade, mas que aparece para mim nesse momento como uma completa estranha. É uma idéia sexualmente fascinante, cara mia. Como poderia dei­xar de ser?


Escrito por: ~ Vickitoria

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1 comentários:

Anônimo disse...

Adorando a Fic...
Próximo capítulo por favorrrrrrrrrrrrrrrr
Besos
Poliane