Para sempre em seu coração -Capitulo 1
O banqueiro ítalo-suíço Esteban San Román sofreu uma perda parcial de memória depois de um acidente de carro.
Aparentemente, ele tem uma esposa... mas não se lembra de ter se casado!
María é bonita, doce... e comum. Quando Esteban tenta levá-la para a cama como qualquer marido faria, ele descobre que ela é virgem!
Então por que não aproveitar todos os prazeres que esse casamento tem para oferecer, quaisquer que tenham sido as razões que fizeram Esteban se comprometer com María ?
— Há quanto tempo estamos casados?
— Esteban falou pausada e suavemente. — Eu quero saber de tudo...
— Em poucos dias você vai se lembrar de tudo por si mesmo.
— E a curto prazo? — perguntou Esteban em tom provocativo, com sua grave fala pausada.
— A curto prazo? — ela repetiu como alguém que nunca tivesse ouvido essa expressão.
— Você e eu — explicou Esteban com uma risada baixa que fez o rosto dela ruborizar enquanto olhava para ele com olhos que pareciam ao mesmo tempo sombrios e brilhantes — O que eu faço com uma esposa de que me esqueci?
CAPÍTULO 1
— Naturalmente você não irá renovar o contrato dele. O Banco San Román não tem lugar para operadores de fundo incompetentes.
O rosto belo de Esteban San Román estava franzido com um ar severo. Para um banqueiro internacional muito ocupado, essa conversa parecia uma perda de seu valioso tempo.
Stefan, seu diretor de RH, limpou a garganta.
— Pensei que... talvez uma conversinha pudesse pôr Rilley novamente nos eixos...
— Não acredito em conversinhas e não costumo dar segunda chance — frisou Esteban friamente. — Nossos clientes, observe bem, também não dão segunda chance. A reputação do banco se baseia em seu desempenho lucrativo.
Stefan Weber refletiu que o próprio renome mundial de Esteban como um perito em economia global e produção de rendimentos mostrava ali sua explicação. O bilionário suíço Esteban San Román era o herdeiro de nove gerações ininterruptas de banqueiros privados e reconhecido por todos como o mais brilhante. Notavelmente inteligente e bem-sucedido, Esteban, entretanto, não costumava ter compaixão com empregados com problemas pessoais. Na verdade, ele era tão temido quanto admirado por sua impiedosa falta de sentimentalismo.
Mesmo assim, Stefan ainda fez uma última tentativa de intervir em favor do desafortunado membro da equipe.
— No mês passado a mulher de Rilley o abandonou...
— Sou o patrão dele e não seu conselheiro — revidou Esteban, encerrando bruscamente o assunto. — Sua vida pessoal não me diz respeito.
Tendo resolvido a questão com o diretor de RH, Esteban deixou seu luxuoso escritório pelo elevador privativo e desceu para o estacionamento no subsolo. Quando deslizou para dentro da suo Volvo, conservava uma expressão implacável de desdém na boca máscula e bem delineada. Que tipo de homem deixaria a perda de uma mulher interferir em seu desempenho profissional a ponto de destruir uma carreira promissora? Uma inaceitável fraqueza de caráter e uma vergonhosa falta de autodisciplina, avaliou Esteban, balançando com desprezo a altiva cabeça ruiva.
Um homem que se lamentasse por problemas pessoais e esperasse um tratamento especial por causa deles era sempre completamente condenado por Esteban. Afinal, a vida por si só era um desafio e, devido a uma infância infeliz e severa, Esteban sabia disso melhor que ninguém. Sua mãe havia desfeito o casamento e abandonado o filho quando ele ainda era uma criança de colo, e qualquer vestígio de cuidado terno e amoroso havia desaparecido de sua criação da noite para o dia. Colocado num internato aos 5 anos, ele só tinha tido o direito de visitar a própria casa quando suas notas na universidade atingiram as altas expectativas do pai. Criado para ser duro e insensível, Esteban havia aprendido ainda muito jovem a nem pedir nem esperar favores de nenhuma espécie.
O telefone de seu carro tocou quando ele estava parado no congestionamento de trânsito da hora do almoço em Genebra, lamentando-se pela decisão de não usar sua limusine com chofer. O telefonema era de seu advogado, Mike Newton. Quando se tratava de assuntos mais confidenciais, ele preferia utilizar os discretos serviços de Mike ao invés da firma legal da família.
— Eu creio que é meu dever, como seu representante legal, avisar que chegou o momento de uma certa conexão ser discretamente desfeita.
O tom de Mike era quase jocoso.
Mike havia sido colega de Esteban na universidade, e ele geralmente apreciava o vivo senso de humor do outro. Embora ninguém mais tivesse um tal nível de intimidade com ele, Esteban não estava disposto nesse momento a ingressar num jogo de adivinhação.
— Vá direto ao ponto, Mike — apressou ele.
— Estive pensando em falar sobre isso há um tempo — Mike hesitou, embora isso não fosse seu hábito. — Mas estava esperando você tocar no assunto primeiro. Já faz quase quatro anos. Já não é hora de dissolver seu casamento de conveniência?
Pego desprevenido por essa lembrança, e exatamente quando o fluxo do tráfego voltava a se mover, Esteban tirou o pé do pedal. O Volvo deu uma guinada em uma súbita parada e provocou uma saraivada de impacientes buzinadas, mas ele não deu vazão a nenhuma das imprecações de raiva que estavam na ponta de sua língua.
Do alto-falante do carro a voz bem modulada de Mike prosseguia, numa total ignorância do efeito que havia provocado.
— Estava pensando que podíamos marcar um encontro ainda essa semana porque a partir da próxima segunda-feira vou tirar férias.
— Essa semana é impossível para mim — Esteban respondeu automaticamente.
— Espero que não tenha sido uma intromissão minha levantar essa questão — observou Mike, com um certo embaraço.
— Dio mio! Eu já tinha até me esquecido desse assunto. Você me pegou de surpresa! — afirmou Esteban, com um riso de pouco caso.
— Pensei que isso fosse algo impossível de acontecer — comentou Mike. .
— Terei que lhe telefonar depois... o tráfego está inacreditável — disse Esteban e encerrou a conversa sem levar adiante o habitual bate-papo.
Sua boca bem delineada estava rígida. Mike tinha tido razão em tocar no assunto do casamento, que Esteban não havia visto outra saída senão contrair, quase quatro anos atrás. Como poderia ele ter deixado de lado a necessidade de quebrar aquele pequeno vínculo com um divórcio? Considerou que levava uma vida incrivelmente ocupada e recordou-se então da situação ridícula que o havia levado a ludibriar os termos do testamento de seu avô por meio de uma esposa falsa.
Seu avô Anthony tinha sido um trabalhador compulsivo até os 60 anos, mostrando ser um autêntico banqueiro San román. Mas depois da aposentadoria se apaixonara por uma mulher com menos da metade de sua idade e havia passado por uma avassaladora mudança de comportamento. Deixando de lado todas as reservas, Anthony adotara as filosofias da Nova Era e havia mesmo casado com a jovem cavadora de esmeralda. Seu comportamento indigno havia conduzido a anos de afastamento entre ele e o filho, o conservador pai de Esteban. O próprio Esteban, entretanto, havia mantido seu apego pelo velho homem e mantivera contato com ele.
Há quatro anos Anthony havia morrido e Esteban ficara estupefato com os termos do testamento de seu avô. Naquele excêntrico documento, Anthony havia estabelecido que no caso do neto não se casar dentro de um certo período, o Castello San román, residência tradicional da família, deveria ser doado ao Estado ao invés de herdado por seu descendente. Esteban, certamente, lamentara ter dito ao avô que, como as chances de um casamento feliz na sua própria opinião eram quase nenhuma, ele não estava visualizando a possibilidade de casar e gerar um herdeiro antes da meia-idade.
Embora Esteban tivesse sido educado para desprezar o sentimentalismo, havia assim mesmo guardado esmaecidas memórias infantis de animadas e alegres visitas ao Castello San román. E mesmo sendo rico o bastante para comprar uma centena de castelos antigos, tivera que admitir que o Castello tinha um peso especialmente forte nos seus sentimentos. Os San Román haviam habitado o Castello, situado acima de um vale remoto, durante séculos, e Esteban ficara horrorizado diante da ameaça de que a propriedade deixasse de ser da família, talvez para sempre.
Uns dois meses depois, quando estivera em Londres a negócios, ele havia discutido com Mike pelo telefone celular os complicados problemas criados pelo testamento do avô. Mesmo estando naquela hora num local público — na verdade estava num salão aparando o cabelo — havia presumido que pelo fato de estar falando em italiano a conversa estava sendo tão privada quanto se estivesse falando de seu escritório. Descobriu que estava errado quando a esteticista mignon que cortava seu cabelo entrou arrojadamente na sua conversa, primeiro para lamentar pelo "estranhíssimo" testamento de seu avô e, depois, para oferecer a si mesma como uma "falsa" esposa, de modo que ele pudesse manter o Castello San Román na família.
Em síntese, María Swan havia lhe vendido sua mão em casamento em um acordo estritamente de negócios. Que idade teria ela agora?, Esteban pensou. Vinte e três anos completados no último dia de São Valentino, respondeu sua memória sem hesitação. Ele podia apostar que ela ainda aparentava não ser muito mais velha que uma adolescente. Ela era magra, mas maravilhosamente cheia de curvas, e pelo menos sua maneira de vestir com certeza teria continuado a seguir as extravagâncias da moda. De preto da cabeça aos pés, botas altas e maquiagem de vampiro, ele se lembrou com um sorriso expressivo ao invés de desagrado. É estranho como um vampiro pode parecer tão sexy, refletiu distraidamente. Antes que o sinal de trânsito abrisse, ele puxou a carteira e com seus longos e ágeis dedos apanhou a foto que María havia lhe dado. Uma foto acompanhada de uma irônica dedicatória — "Sua esposa, María " — e com o número de um telefone atrás.
"Algo para você se lembrar de mim", ela havia dito, balbuciando como um riacho transbordando porque ele já sabia e María tinha de alguma forma percebido que, além de qualquer necessidade legal de controlar seu paradeiro, ele não iria mais procurar nenhum outro contato pessoal com ela.
"Beije-me." Aqueles seus imensos olhos haviam suplicado em um convite silencioso.
Com total firmeza ele havia resistido à tentação. Eles tinham feito um acordo de negócios que devia permanecer isento de sexo: Mike o havia advertido que se ele consumasse aquilo que fora essencialmente apenas um casamento no papel estaria se sujeitando a uma reivindicação no sentido de arcar com o sustento dela.
Ele devia ter apenas imaginado ter sido tentado por ela, disse Esteban a si mesmo, irritado. Que espécie de atração ela poderia ter suscitado nele? Havia largado os estudos aos 16 anos. Era uma moça sem boa formação, com origem de classe pobre trabalhadora. Dio mio... uma cabeleireira! Uma pequena e risonha cabeleireira, com no máximo um metro e sessenta de altura e totalmente sem interesses culturais ou quer sofisticação! O que havia de comum entre eles era apenas sua humanidade! Finalmente ele se permitiu olhar para baixo, para a fotografia. Ela era tão bonita, fez questão de lembrar a si mesmo, preocupado por estar tão absorvido por esses pensamentos. Procurou atentar para o fato de que as sobrancelhas dela eram muito retas, seu nariz fino e encrenqueiro. Mas independente dessas imperfeições, os olhos verdes e brilhantes de Esteban ainda se detinham no ar alegre e travesso dos olhos dela e no vivo e amplo sorriso que havia na viçosa boca pintada de cor de amora.
Apesar de tudo, ele não podia esquecer a última vez que havia visto sua falsa esposa: seu aceno de mão vivaz, apesar de seus olhos parecerem umedecidos, o sorriso resoluto e desafiador, como lhe dizendo que ela iria encontrar um homem que realmente acreditasse em romance... Teria ela encontrado esse homem ideal? Teria descoberto seu ídolo de pés de barro? Teria sido por isso que ela teve que requisitar o divórcio por interesse próprio?
Cogitando sobre isso enquanto fazia uma curva, Esteban teve apenas uma fração de segundo para se posicionar quando uma criança correu da calçada para o meio da rua atrás de um cachorro. Ao frear, ele torceu violentamente o volante, numa feroz tentativa de desviar e evitar atropelar a menina.
Num solavanco, o Volvo se chocou de frente na parede do outro lado da rua, mas ele ainda teria escapado ileso se tivesse tido a chance de sair do carro antes que um outro veículo o atingisse diretamente.
Quando aconteceu a segunda colisão, uma dor atordoante irrompeu na base do crânio de Esteban, deixando-o desacordado.
Com a fotografia ainda enrascada em seus dedos, ele foi levado às pressas para o hospital. A irmã de seu falecido pai, Alice, foi chamada à sala de emergência. Ela olhou com um desdém arrogante para as duas jovens enfermeiras que reagiam ao charme extravagante de Esteban com um olhar faminto de admiração.
Uma mimada e orgulhosa morena, vestida de um modo que os menos bondosos julgariam inapropriado para uma mulher de 60 anos, Alice estava furiosa com a interrupção no seu dia. Esteban ficaria bom! Esteban era indestrutível, todos os homens da família San Román eram. Fora a pancada na cabeça, seus outros ferimentos eram insignificantes. Alice devia voar para Milão no dia seguinte para a inauguração de uma galeria de arte com seu noivo Jasper, e estava disposta a não alterar os planos.
Quando um médico finalmente veio até Alice para lhe dizer que embora Esteban tivesse recuperado a consciência, ele parecia estar sofrendo de algum grau de amnésia temporária, o aborrecimento e a decepção dela foram intensos.
— A esposa do Sr. San Román está vindo? — perguntaram depois a Alice.
— Ele não é casado.
Com uma expressão de surpresa o médico estendeu para ela uma fotografia um tanto amassada.
— Então, quem é essa?
Surpresa, Alice observou a foto e a dedicatória reveladora. Esteban tinha casado com uma inglesa? Meu Deus, como ele não havia contado para ninguém? Mas ele não era famoso por sua reserva e reticência fria, seu desagrado extremo por publicidade? Seu casamento teria na verdade provocado o tipo de manchete que ele consideraria detestável e intrusiva, admitiu Alice. Será que ele planejava comunicar aos parentes que havia casado? Mas ao considerar aliviada que, naquela situação, o fato de Esteban ter uma esposa a livrava de qualquer responsabilidade por ele enquanto estivesse hospitalizado, Alice apressou-se em telefonar para a misteriosa noiva do sobrinho.
No instante em que María entrou em seu pequeno apartamento e viu o rosto perturbado de sua irmã Ângela, um calafrio correu por sua espinha.
— O que houve? — perguntou, largando precipitadamente o jornal que tinha saído para comprar.
— Enquanto estava fora, uma mulher telefonou... É melhor que você se sente antes que eu lhe diga o que ela falou sobre sua família.
Ângela era uma morena alta e magra com um olhar tão sério nos olhos castanhos que sugeria um grau incomum de maturidade para uma moça de 17 anos.
María franziu as sobrancelhas.
— Deixe de bobagem. Você está aqui, e inteira, e é a única família que eu tenho. Quem foi que telefonou... e qual foi o recado?
— Eu não sou a única família que você tem — disse a irmã em um murmúrio constrangido. — Esteban San Román sofreu um acidente de carro.
O rosto de María foi empalidecendo e ela encarou a irmã mais nova com os olhos fixos. Suas pernas vacilaram e ela sentiu-se oscilar.
— Ele está...
— Vivo... Sim!
Passando um braço sobre os ombros frágeis de María , Ângela fez a irmã sentar-se no pequeno sofá da cozinha, que também servia de sala de estar e de jantar.
— Foi a tia de Esteban que telefonou. Ela fala muito mal o inglês e só conversamos por uns dois minutos.
— Ele teve ferimentos graves?
— Ele teve alguma espécie de seqüela na cabeça. Tenho a impressão de que pode ser sério. Está sendo transferido para outro hospital. Fique tranqüila, anotei o endereço. — Ângela apertou a mão da irmã, num gesto de encorajamento. — Tente respirar fundo, Bella, bem lentamente. Concentre-se no fato de que Esteban está vivo. Você teve um choque, mas pode estar com ele amanhã de manhã.
Abaixando a cabeça, ainda tonta, María ficou semi-mergulhada no próprio mundo. Esteban, o precioso e secreto amor de sua vida, mesmo que ela não tivesse sido para ele nada além de um instrumento útil para um certo objetivo. Era estranho e terrível que o amor pudesse despontar assim, pensou, tomada por um sofrido arrependimento momentâneo. Esteban, seu marido querido, que ela nunca nem sequer beijara. O Esteban alto e ruivo, com forte vitalidade, devia nesse exato minuto estar lutando para sobreviver em uma cama de hospital. O acidente de carro que havia matado sua mãe e seu pai, há quase sete anos, havia estraçalhado a sua vida e a de Ângela. Nessa ocasião, a espera longa e enervante no hospital não havia resultado em nenhum milagre de sobrevivência.
— Estar com ele? — repetiu María depois de muito tempo. — Estar com... Esteban?
Poderia estar com ele? Ela ousaria tentar? Uma esperança insensata surgiu dentro de María . Ela podia ser sua esposa apenas de nome, mas isso não significava que não devia se preocupar com a saúde dele. A tia de Esteban não havia telefonado para informá-la do acidente? Obviamente seu casamento não era exatamente o segredo que ela pensava que seria no círculo familiar dele. Parecia evidente também que os parentes dele acreditavam que se tratava de algo mais do que apenas um casamento no papel.
— Eu sei muito bem o que isso significa para você e sabia exatamente o que você iria querer fazer — Ângela apressou-se em assegurar. — É uma emergência, por isso entrei imediatamente na internet e reservei lugar num vôo para Genebra para você. Ele parte amanhã logo cedo...
— Claro que eu gostaria de vê-lo, mas...
— Sem nenhum "mas"! — Com uma nítida consternação e traindo na voz um agudo laivo de tensão, Ângela ergueu-se bruscamente. — Não deixe que seu orgulho a impeça de correr para lá e ficar com Esteban. Você é esposa dele e aposto que o que vocês já tiveram um dia juntos pode ainda ser restabelecido. Já tenho idade suficiente para avaliar exatamente quanto problema uma atitude errada minha já causou entre vocês!
O explosivo discurso de Ângela espantou muito María . Até aquela hora ela não fazia idéia de que Ângela podia ter se culpado pelo aparente insucesso de seu casamento.
— Meu relacionamento com Esteban simplesmente não deu certo. Você não deve pensar que teve alguma influência nisso — frisou ela num protesto desajeitado.
— Pare de tentar me proteger — gemeu Ângela. — Eu fui egoísta. Perdemos mamãe e papai e eu era tão possessiva que você tinha medo até mesmo de me deixar encontrar Esteban!
— Não foi isso que aconteceu entre Esteban e mim... — María começou com desconforto.
— Sim, foi. Você me colocou em primeiro lugar e me deixou estragar o dia de seu casamento e arruiná-lo antes mesmo que ele tomasse seu rumo. Eu fui horrivelmente rude com Esteban e ameacei fugir se você me forçasse a morar no exterior. Eu me coloquei entre vocês dois... claro que sim! — Ângela suspirou profundamente. — Você estava tão apaixonada por ele... Eu ainda não posso acreditar o quanto fui cruel com você...
— O que a tia de Esteban disse exatamente?
— Que ele estava perguntando por você — mentiu Ângela, cruzando dois grupos de dedos atrás das costas, como que para pedir desculpas por uma pequena mentira que ela esperava fizesse sua irmã se sentir mais confiante para viajar e encontrar o marido de quem havia se separado.
Esteban tinha perguntado por ela? María foi tomada por uma surpresa logo substituída por uma onda de pura alegria e, de repente, ela se sentiu capaz de fazer frente a qualquer desafio. Ela andaria até sobre o fogo por ele, atravessaria lagos e escalaria montanhas para estar a seu lado. Esteban precisava dela! Aquela constatação derrubou as barreiras. Para um homem com a intimidadora auto-suficiência de Esteban expressar o desejo de sua presença, ele devia estar muito fraco ou seriamente doente, concluiu María preocupada. Ela correu para o quarto para fazer a mala.
— Mas e o salão? — murmurou, revistando o armário à procura de roupas básicas e quase incapaz de pensar direito. — Quem vai tomar conta dele?
— Bree — sugeriu a irmã, referindo-se a Bree Witherspoon, assistente de María no salão de cabeleireiro. — Você disse que o desempenho dela era excelente quando você ficava gripada.
No vestíbulo com luz baixa, María pegou o fone, com os olhos azuis distraídos mas brilhando. Os cabelos sedosos que emolduravam seu rosto oval cintilavam como um farol. Era aquela tonalidade brilhante quase prateada geralmente obtida por meios artificiais. Inúmeras vezes María tinha sido forçada a explicar a clientes incrédulas que seu cabelo era natural. Talvez para desculpar-se por não ter tido que recorrer a um dos clareadores tão amados por sua clientela, ela ocasionalmente acrescentava um leve toque de uma outra cor às pontas do cabelo, e nesse mês em particular ela havia utilizado uma pálida e delicada nuance de rosa.
Ela tratou com Bree para vir pegar as chaves do salão e ligou para uma outra esteticista, que vinha ocasionalmente quando havia muito movimento, para oferecer-lhe jornada de horário integral durante sua ausência. Tomadas essas providências, nem quis pensar em como esses custos extras iriam pesar em suas já curtas margens de lucro. Ela se voltou para a irmã, Ângela, e titubeou:
— Como posso deixar você sozinha aqui no apartamento?
— De qualquer maneira minhas férias semestrais terminam amanhã e vou pegar o trem de volta para o colégio — lembrou Ângela. — Eu creio que posso fazer isso sozinha. Já tenho 17 anos, Bella.
Sem jeito por não ter se lembrado disso, María deu um abraço afetuoso em sua adorada irmã.
Considerando bem, ela só podia se maravilhar com a mudança que o tempo e o auxílio financeiro de Esteban haviam operado na vida das duas. Ela devia tanto a Esteban! Na verdade, ela tinha para com ele uma dívida que nunca poderia pagar!
Quatro anos atrás, as irmãs estavam vivendo em um velho apartamento precisando de pintura em um distrito dominado pela miséria e a vida era árida. Ângela sempre foi inteligente, e María estava determinada a garantir que a morte precoce e trágica dos pais não impediria que a irmã mais nova realizasse plenamente seu potencial nos estudos. María tinha sido tomada por um sentimento de culpa e de fracasso quando a irmã, ainda menina, se envolvera com más companhias e começara a cabular as aulas. Nessa época, María vinha trabalhando por longas horas como esteticista júnior. Ela não estava numa situação que permitisse mudar-se para um lugar melhor ou ter mais tempo para tomar conta de uma adolescente rebelde.
A generosidade de Esteban tinha transformado totalmente suas vidas. Ela não queria aceitar seu dinheiro, mas concluíra que aquele dinheiro lhe daria a melhor chance possível de colocar sua irmã de volta no caminho certo. Gastara só o necessário para estabelecer seu próprio negócio de cabeleireiro no subúrbio de Hounslow, distante da elegante Londres. Levando em conta as necessidades de Ângela, na época, María acreditava que tinha tomado a decisão certa. Apenas às vezes se pegava imaginando se Esteban teria saído da defensiva, a respeitado mais e mesmo feito contato com ela se tivesse mantido sua primeira intenção de simplesmente casar com ele e recusar qualquer outra recompensa.
Afinal, sua intenção ao se casar com ele era a mesma de uma amiga lhe prestando um favor. Por surpreendente que fosse para Esteban, um homem que pouco parecia notar que ela existia, teria feito qualquer coisa para agradá-lo ou impressioná-lo. Mas, infelizmente, uma vez que havia cedido à tentação de deixar que a riqueza dele resolvesse seus problemas, ou seja, uma vez que ela aceitara o dinheiro dele, havia mudado com isso tudo entre eles, admitiu tristemente.
— Eu prefiro pagar pelos serviços prestados — Esteban havia falado lentamente, fazendo-a sentir-se como uma agiota. — Assim não haverá nenhum mal-entendido.
No dia seguinte, no meio da manhã, o Dr. Caius teve dificuldade em esconder a surpresa quando sua secretária anunciou a esposa de Esteban San román, María . A miúda mulher cuja ansiedade estava patente em seus brilhantes olhos azuis não era de forma alguma o que ele esperava.
— Eu tentei telefonar antes, mas a telefonista não conseguiu achar o número desse lugar — confidenciou María numa explicação apressada.
Ela estava muito nervosa. A última palavra em opulência, o hospital não se parecia com nenhum outro onde já tivesse entrado e ela tivera que comprovar sua identidade antes de ter permissão para entrar. Ao contrário de sua expectativa de que a tia de Esteban, Alice, estaria lá para recebê-la e abrir caminho, tivera que apresentar-se a si mesma como esposa de Esteban San román. Tendo feito isso, sentiu-se terrivelmente desonesta, mas estava convencida de que se dissesse a verdade sobre o casamento deles nunca seria admitida sequer para visitar Esteban.
— Essa é uma clínica particular e como nossos pacientes exigem discrição e segurança, o número do telefone não está à disposição. — O homem de cabelos grisalhos lhe estendeu a mão. — Estou aliviado por ter podido chegar aqui tão rapidamente...
Percebendo um mau prenuncio naquela afirmação, María empalideceu e murmurou:
— Esteban?
— Desculpe-me, eu não quis preocupá-la. Fisicamente, além de uma severa dor de cabeça, seu marido não tem nada mais do algumas pequenas contusões. — Com um sorriso confortante, o médico a conduziu pelo seu luxuoso consultório até uma cadeira. — Entretanto, sua memória não teve a mesma sorte.
Com sua pior preocupação acalmada, María afundou na cadeira de braços e depois pareceu confusa.
— Sua... memória?
— O Sr. San Román sofreu um golpe na cabeça e esteve inconsciente por algumas horas. Um certo grau de desorientação não é incomum depois de um episódio como esse... Mas, infelizmente, no caso dele, parece ter havido um distúrbio temporário na memória.
Alertada pelo ar de gravidade do médico, María tinha ficado muito silenciosa.
— O que isso significa? — perguntou com a boca seca.
— Um exame de rotina logo que ele recuperou a consciência revelou uma discrepância na sua percepção de datas...
— Datas? — inquiriu María de novo.
— A memória de Esteban apagou aquilo que eu estimo sejam os últimos cinco anos de sua vida. Ele próprio não havia percebido o problema até que o assinalamos. Ele tem perfeito conhecimento de todos os aspectos de seu passado mais remoto, mas todas as lembranças desse último período estão inacessíveis para ele.
María fixou os olhos no médico, transtornada e incrédula.
— Cinco anos... inteiros? Tem certeza disso?
— Absoluta. O Sr. San Román não se recorda tampouco do acidente.
— Mas por que isso aconteceu com ele? — perguntou María , preocupada.
— Não é raro ocorrer perda definitiva de memória como resultado de um golpe na cabeça, mas de um modo geral só de períodos de tempo muito curtos. É o que se chama de amnésia retrógrada. Eventualmente um trauma emocional ou mesmo estresse podem causar problemas desse tipo, mas eu penso que podemos descartar essa possibilidade nesse caso em particular — avaliou o Dr. Caius com segurança. — É quase certo que seja uma condição temporária e dentro de dias o que foi esquecido vai ser lembrado, aos poucos, ou até mesmo de uma vez só.
— Como Esteban está reagindo? — perguntou María com voz fraca.
— Logo que o Sr. San Román se deu conta de quanto tempo sua mente apagou de sua lembrança, ele ficou muito chocado.
— Claro...
María estava tentando imaginar como Esteban, que sempre supunha ter cem por cento de controle sobre si mesmo e sobre tudo em volta, iria lidar com essa enorme falha nas suas capacidades.
— Antes dessa revelação, o Sr. San Román estava a ponto de ignorar todo conselho médico e voltar para o escritório — admitiu o Dr. Caius pesarosamente. — Para um homem de intelecto e caráter forte como ele, certamente habituado a exercer um poder considerável, um evento inexplicável pode se tornar uma situação muito frustrante para ser aceita.
— Por Deus... Esteban não vai nem mesmo se lembrar de mim!
— Eu ia chegar a esse ponto — afirmou o médico num tom benevolente. — Mas considero promissor o fato de estar aqui para dar ao Sr. San Román o apoio de que ele necessita para lidar com essa situação...
A testa dela havia se franzido.
— A tia de Esteban, Alice, não está aqui também?
— Creio que viajou para o exterior essa manhã devido a um compromisso social urgente — apressou-se em dizer o Dr. Caius.
Atônita com a informação, María engoliu com dificuldade uma exclamação: por Deus, tia Alice! Evidentemente, pouco havia a se esperar dela. María sentia uma espécie de vertigem e uma confusão de pensamentos conflituosos. Primeiramente tranqüilizada pelas notícias de que Esteban não estava seriamente ferido, ela havia ficado perplexa quando lhe informaram sobre a sua perda de memória. Ela tentou se imaginar voltando para o próprio mundo como ele era cinco anos atrás ao invés de como estava agora.
Pensou na responsabilidade que ainda sentia ter com relação a Esteban e sobre o quanto desejava vê-lo. De uma maneira puramente amigável e desinteressada, ela podia servir de ajuda e de apoio para ele. Era uma idéia ao mesmo tempo atormentadora e sedutora. Mas não seria desonesto posar como sua verdadeira esposa? Ela era sua esposa no papel, mas não de nenhuma outra forma.
Um estremecimento de repulsa e vergonha diante da idéia de manter essa mentira atravessou o corpo delgado de María . Porém ela havia prometido a Esteban que nunca iria revelar os verdadeiros termos de seu casamento a ninguém e, para aliviar sua consciência, decidiu em vez disso contar uma meia-verdade.
— Eu devo admitir que Esteban e eu temos estado... bem... separados — disse ela, embaraçada.
— Agradeço-lhe pela confidencia e garanto-lhe que o que me disse ficará entre nós. Mas também lhe peço que não revele nenhum fato potencialmente aflitivo ao meu paciente, se puder evitar — enfatizou o médico, com bastante seriedade. — Embora o seu marido não vá admitir isso, ele já está sob grande estresse e acrescentar algo a essa carga poderia prejudicar a plena recuperação.
María concordou com uma séria compreensão. Da sua boca, Esteban não ouviria nada que pudesse perturbá-lo.
— Como esposa do Sr. San román, a senhora é sua parente mais próxima e pode fazer o que outros não podem em seu benefício. Ele tem inúmeros empregados, que paga para cumprirem suas ordens, mas você está numa posição muito mais importante — opinou o Dr. Caius animadamente. — Seu marido precisa sentir que tem perto dele alguém em quem possa confiar. Procure não cometer nenhum equívoco. Seu estado atual o torna muito vulnerável.
— Não posso imaginar Esteban como vulnerável...
— Contudo, se posso falar francamente... vai ser responsabilidade sua se colocar entre ele e os homens de negócios que vão procurar ter acesso a ele. As necessidades pessoais dele devem ser postas em primeiro lugar — advertiu o Dr. Caius. — O Banco San Román pode passar sem ele no momento. Ele precisa descansar e relaxar.
— Posso vê-lo agora?
O médico lembrou a reação inicial de espanto do seu paciente ao descobrir que era um homem casado, mas rapidamente afugentou qualquer apreensão por causa disso. María San Román poderia muito bem ser mais hábil do que parecia. Ela devia até ser capaz de se defrontar com firmeza com a frieza do caráter despótico e intimidador do marido bilionário... Mas mesmo sendo o Dr. Caius um habitual jogador, ele não teria arriscado apostar nisso.
María respirou profundamente e seguiu atrás da enfermeira. Em apenas alguns minutos ela estaria vendo o único homem que já havia conseguido fazê-la chorar...
Escrito por: ~ Vickitoria



4 comentários:
Amando desde o primeiro capítulo
Por favor não deixe de escrever a história, ja comecei a ler muitas que as escritoras não terminaram
Não deixarei, ja estou com a historia pronta.... Postarei todos os episodios... Beijos, e obrigado por gostar da história...
Ok
Estou amando
Tooooooooooooop demais!!! Parabéns!!
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