Para sempre em seu coração Capitulo 3
CAPÍTULO TRÊS
Uma golfada com forte sabor de culpa
inundou a garganta de María e subiu até
seus cabelos.
Sexualmente fascinante? María remexeu-se no assento. Uma mulher com quem
ele tinha compartilhado tanta intimidade? Era natural que Esteban fizesse essa
suposição. Não podia ocorrer a ele que ela não havia sido uma esposa como as
outras. Afinal seu compromisso quase quatro anos atrás tinha se estabelecido
de forma bastante incomum.
— Você vê as coisas de um modo fantasioso —
murmurou embaraçada, esforçando-se para não deixar transparecer quão
desconfortável se sentia.
— Você fica vermelha como uma adolescente —
observou Esteban, direto e divertido.
— Absolutamente, apenas com você! —
retrucou María , enfurecida pela suspeita de que seu rosto estava quente o
bastante para fritar ovos. O fato de enrubescer até a raiz dos cabelos quando
se envergonhava tinha feito dela vítima de muitas piadas no colégio, quando
adolescente. Felizmente esse problema fora superado, mas parecia que não com Esteban.
— Nós não podemos estar casados há muito
tempo — comentou Esteban, tornando sua fala envolvente lenta e arrastada,
enquanto se aproximava e a envolvia em seus braços.
— Não! — gritou María , como se algum
alarme tivesse disparado nela.
Um involuntário arreganhar de dentes
apareceu no rosto esbelto e discretamente atraente de Esteban ao perceber que,
embora ela não fosse muito maior que uma boneca, tinha um temperamento
extremamente firme.
— Não se preocupe... Acho que beijar minha
esposa não vai me colocar de novo no hospital...
— Como pode ter certeza disso? — perguntou María
abruptamente, afastando um pouco mais a
cabeça para trás e para fora do alcance dele, embora sua vontade fosse
lançar-se sobre ele, aproveitando a oportunidade que se apresentava. — Acho
apenas que não deve haver beijos... ainda.
— Non c'e problema — ironizou Esteban
tranqüilamente, observando o ar de preocupação da esposa e divertindo-se com o
medo dela de que a atividade sexual pudesse de alguma forma ser prejudicial à
sua saúde. — Pense nisso como uma experiência útil. Poderia até trazer à tona
lembranças perdidas, María mia.
— Esteban...
Mas a ansiedade estava surgindo
rapidamente: María não queria detê-lo,
não tinha força de vontade suficiente, não podia esperar para experimentar aquilo
que antes lhe havia sido negado. E quando a esguia boca sensual dele sentiu o
gosto da dela, todas as zonas eróticas dela arderam. Seu coração bateu com uma
excitação louca e desgovernada.
Com os longos dedos deslizando pelos
cabelos dela, ele inclinou a cabeça de María para trás para beijar melhor sua boca. Ela se
inclinou sobre o braço forte dele, dobrando a espinha da maneira mais
encorajadora possível. Ele mergulhou a língua entre seus lábios prontamente
abertos e colheu a doçura que havia neles com uma fome masculina tão vigorosa
que a espantou. Seu corpo saltou quase em agonia, com as pulsações aceleradas e
as terminações nervosas trepidando. Um calor ergueu-se bem no seu âmago.
Impotente contra o próprio desejo, ela gemeu baixinho.
Freando com dificuldade uma longa aspiração
inacabada, Esteban a soltou. Com os cílios negros deixando entrever apenas um
brilho escuro nos olhos, ele murmurou calmamente:
— Estamos em casa.
Sem fôlego e estonteada pela incomum
explosão de paixão, María abaixou a
cabeça e tentou reassumir o controle de si mesma. Bem embaixo, em seu corpo,
em um local privado sobre o qual não estava nem mesmo habituada a pensar, ela
sentia uma grave dor de desapontamento. Havia sido arrebatada: Esteban poderia
ter feito amor com ela no assento de trás da limusine — e ele provavelmente
sabia disso. María sentia-se tão
envergonhada por tê-lo encorajado que se perguntava como encará-lo novamente.
Ela havia se comportado como uma fã sexualmente ansiosa deixada a sós com seu
ídolo. No que, afinal, ela estava se metendo? Ele a havia aceitado em
confiança e, para ser digna dessa confiança, precisava manter uma distância
apropriada entre eles! Quando o chofer abriu a porta a seu lado, ela se
arrastou apressadamente para fora do carro. Só então deu uma boa olhada a sua
volta.
Em casa? Esteban parecia morar em uma
grande mansão de pedra isolada situada por uma cortina alta de muros. Um
mordomo de meia-idade esperava ao lado da entrada imponente. O vasto saguão de
chão de mármore era guarnecido com esculturas clássicas e mobília adornada. Ela
ficou intimidada com o requinte e seus passos vacilaram.
—Santo cielo...
A exclamação indelicada de Esteban fez María
se sentir tonta. Com o rosto muito
carrancudo e perturbado, ele parecia estar olhando para a bela lareira de
mármore. Uma constatação repentina sobreveio a ela. Esteban havia se
surpreendido com alguma coisa. Algo devia estar diferente ou pelo menos não
estava como ele tinha previsto. Como pelo jeito ele não se lembrava do que
exatamente havia mudado, sentia-se naturalmente desorientado, e, tratando-se de
sua própria casa, isso devia ser muito mais desconcertante.
Percebendo que o mordomo a examinava com o
canto do olho, María correu em direção a
Esteban, enfiou a mão sem cerimônia em seu braço e se espichou para sussurrar:
— Vamos subir...
Ao mesmo tempo em que se perguntava por que
um dos quadros favoritos de seu avô estaria dependurado ali, na casa de campo
do neto, Esteban reagiu àquele pequeno e sussurrante convite feminino da mesma
forma que os machos fogosos o fazem há séculos. Esquecendo momentaneamente o
enigma do quadro, sobreveio-lhe um desejo de tomar sua pequena esposa e
beijá-la ardentemente — ela havia lido sua mente com acuidade. Seria assim que
ele normalmente agia em relação a ela? Inquietou-se por ter que admitir que não
fazia a menor idéia.
— Esqueci de uma coisa... Vá subindo —
disse María quando eles chegaram ao
andar de cima.
Desvencilhando-se dele, ela tornou a descer
apressadamente para falar com o mordomo.
— Sei que deve estar se perguntando quem
sou eu — começou María , pouco à vontade. — Você é...
— Demetrius, signorina. Eu cuido da casa, e a senhorita é hóspede do Sr. San
Román — respondeu o ancião suavemente.
— Não exatamente... Eu sou... a esposa de Esteban,
María — explicou murmurando em tom
conciliador.
Apesar de treinado para a discrição total, Demetrius
não conseguiu esconder sua surpresa.
— Por favor, providencie para que nenhuma
chamada telefônica, pessoal ou de negócios seja transmitida a meu marido.
Demetrius se aprumou. Seus lábios
entretanto remexiam-se ansiosamente.
— Não deixe de seguir minha instrução —
acrescentou María sacudindo a cabeça.
Quando ela subiu novamente, Esteban a
avaliou com um olhar penetrante e depois, com uma expressão decidida, curvou-se
e arrebatou-a, erguendo-a nos braços.
— Esteban — reclamou María , absolutamente
surpresa e confusa. — O que... pensa que está fazendo?
Dando largos passos, Esteban soltou uma
vigorosa e sensual gargalhada e empurrou habilmente com o ombro a porta da
suíte principal.
— Estou me assegurando de que as instruções
que você deu há pouco a Demetrius, a respeito do jantar ou seja lá o que for...
não vão nos interromper novamente!
— Por favor, coloque-me no chão... —
ordenou María com uma urgência nervosa.
— Você devia estar repousando, Esteban.
Esteban a fez descer, com extremo cuidado,
sobre uma pesada cama.
— Tenho toda a intenção de fazer isso...
mas só que com uma companhia, cara.
María rolou para o outro lado e saiu da cama. Seu
rosto estava intensamente rosado.
— Mas desse modo você não iria repousar...
Com os longos dedos ele soltou rápido o nó da gravata de seda, retirou-a e
livrou-se dela. Seus olhos, que brilhavam intensamente, chamejaram na direção
dela num claro desafio.
— Não é preciso que eu me lembre dos
últimos cinco anos para saber que não sou um sujeito dado a ficar sem fazer
nada. Se não estou trabalhando, preciso de alguma atividade...
— Mas não isso — cortou María ,
resfolegando. — Você apenas está pensando que deseja dormir comigo, mas na
realidade... você não quer. O que deseja apenas é tornar-me mais familiar para
você...
— Não posso acreditar que tenha casado com
uma mulher que faz uma peça teatral de três atos em torno de sexo — disse Esteban
incisivo e com escárnio.
— Estou apenas tentando ajudar. — María apertava as mãos em um gesto que revelava
involuntariamente sua tensão. — Isso não é o que você precisa exatamente nesse
momento...
— Deixe que eu decida.
Em seguida, Esteban ficou quieto, e seus
olhos brilhantes não mais pareciam fixá-la. Sua boca sensual se retorceu e
depois se imobilizou com uma expressão severa.
— O que foi? — perguntou María ,
preocupada.
Esteban olhou de novo para ela. Seus escuros
olhos verdes pareciam atordoados, desolados e amargos, e as rígidas maçãs do
rosto sobressaíam sob a pele empalidecida.
— Anthony, meu avô, morreu. E por isso que
aquele quadro de Matisse está aqui em casa ao invés de no Castello... certo?
Enquanto ele falava María também perdeu a cor.
— Não vá se recusar a me falar sobre esse
assunto — advertiu Esteban friamente.
Lágrimas surgiram involuntariamente nos
olhos consternados de María e ela
assentiu com uma dolorosa relutância.
— Sim, eu sinto muito... Seu avô morreu
quatro anos atrás.
— Como foi que ele morreu? — perguntou Esteban.
— Um ataque cardíaco, creio que fulminante
— afirmou María , agradecendo a Deus porque pelo meios isso ela sabia, e
rezando para que ele não exigisse mais detalhes.
Esteban voltou-se e afastou-se dela,
caminhando em direção às altas janelas. Seus ombros fortes pareciam tensionados
sob o tecido caro do paletó. Ele a estava deixando de fora e ela sabia disso.
Mentalmente, ele a havia feito desaparecer de sua presença, como se tivesse
batido uma porta na sua cara.
— Esteban... — murmurou María , com uma
compaixão que tinha medo de demonstrar.
— Vá verificar o menu do jantar —
aconselhou ele secamente.
O olhar preocupado dela faiscou e ela se
ergueu.
— Pouco me importa agora esse tipo de
detalhe. Não me coloque fora disso. Eu era extremamente apegada à minha avó e
fiquei completamente desorientada quando ela morreu...
— Algumas pessoas preferem não ficar
exibindo por aí seus sentimentos íntimos — retrucou ele, asperamente.
— Está bem, está bem! — María ergueu os braços num gesto de desistência, com
as sobrancelhas arqueadas diante da veemência dele.
Com o rosto pálido e enrijecido de
transtorno, já que ele não poderia ter rejeitado mais acintosamente sua
tentativa de confortá-lo, ela se virou para sair do quarto.
Então, o que você anda fazendo?, perguntou
uma vozinha velhaca dentro da cabeça de Esteban. Dando pontapés em filhotes?
Vencendo com folga um torneio escolar?
Demetrius estava ali, no corredor. Com ele
havia um outro homem carregando a mala dela. María se deteve repentinamente.
— Signora.
— Com uma delicada inclinação da cabeça, o mordomo abriu a porta do quarto ao
lado e posicionou-se para que ela pudesse entrar primeiro.
Um quarto para cada um, pensou María ,
piscando diante da magnificência da mobília e do espaço impressionante do
ambiente. Como se não fosse apropriado que maridos e esposas ricos
compartilhassem o mesmo quarto. Ora, isso poderia ter sido mesmo embaraçoso,
pensou consigo mesma. Quando deu uma olhada em seu reflexo em um elegante e
inconveniente espelho de corpo inteiro, ela pôde ver que seus olhos ainda
reluziam, denunciando um estúpido e fraco choro! Como pôde deixar que uma
palavra dura de Esteban a transformasse assim numa débil lacrimejante?
Suspirando profundamente, María tentou se acalmar e seguiu Demetrius para
fora do quarto.
— Eu gostaria de fazer um passeio pela casa
— disse-lhe com um sorriso amigável, sabendo que isso era necessário. Ela não
poderia fingir que estivera morando na residência de Esteban se não a
conhecesse. Mesmo assim, as mentiras que ela havia assumido com tão pouca
premeditação estavam começando a enervar María . Dentro de uns dois dias,
refletiu, Esteban certamente iria recuperar a memória e não teria mais
necessidade dela. Iria ele apreciar o fato de ela ter procurado ajudá-lo?
Demetrius era muito detalhista. Ele teria
ficado feliz em mostrar a ela o interior de cada armário. María o apressou, passando rápido de um cômodo para
o outro, assombrada com o tamanho da casa, estupefata com o extremo requinte da
mobília e a formalidade dos empregados, mas encantada com as muitas pinturas
emolduradas. Na cozinha do subsolo ela conheceu o chefe de cozinha, mas
demonstrou mais consternação que aprovação ao saber que exatamente o mesmo
menu era alternado periodicamente todos os anos. Intuindo a probabilidade de
uma maior liberdade gastronômica, o chefe francês beijou a mão dela, correu
para o jardim dos fundos, colheu um botão de rosa amarelo vibrante e, voltando,
ofereceu-o a ela.
Rindo, María enfiou o botão no cabelo e dirigiu-se
novamente para o andar de cima para descansar um pouco antes do jantar.
As poucas coisas que trouxera na mala já
tinham sido arrumadas no guarda-roupa, e ela precisou procurar nas gavetas uma
roupa para trocar. A ducha no banheiro da suíte foi deliciosa, com jatos d'água
múltiplos. Sorrindo com esse luxo ao qual não estava habituada e enrolada em
uma grande toalha felpuda, ela andou descalça para fora do banheiro.
Esteban estava no quarto, esperando por
ela. Ela se deteve num movimento abrupto, com os olhos confusos percebendo a
porta aberta que evidentemente se conectava com o quarto dele.
— Dio mio... Essa rosa me agrada —
murmurou Esteban suavemente.
María fez um movimento tímido com a mão em direção
ao botão que ela havia recolocado no cabelo.
— Seu chefe de cozinha me ofereceu...
Esteban havia trocado seu terno de trabalho
por uma calça preta de corte impecável e uma camisa esporte azul. Ele parecia
tão categoricamente esplêndido que ela não conseguia parar de admirá-lo. O
ardente apelo sexual dele atingiu-a como uma onda tempestuosa e arrebatou-a
fortemente.
A consciência da própria pele nua sob a
toalha fez com que María fosse tomada
por uma penosa timidez. Ela estava envergonhada pelas protuberâncias de seus
seios fartos, sob o tecido felpudo, mas quando deparou com o olhar brilhante e
ardoroso de Esteban seu embaraço foi diluído pela força da própria reação àquela
irresistível masculinidade. O formigamento em sua pélvis se intensificou em uma
explosão de desavergonhada quentura e suas pernas tremeram. Ela não conseguia
se mover, não conseguia sequer pensar em alguma coisa para dizer.
A atmosfera estava elétrica.
— Eu quero você, cara mia — murmurou
Esteban.
Aquela confissão provocou em María um extravasamento de prazer e dor. Ela já
havia nutrido antes fantasias secretas sobre esse momento mágico. O momento em
que Esteban iria milagrosamente deixar de lado toda a formalidade e vê-la como
uma mulher desejável. O que antes havia sido seu sonho mais fervoroso estava
nesse momento acontecendo. Esteban estava dizendo que a queria e em todos seus
sonhos ela havia sempre se atirado sobre ele numa retribuição prazerosa. Só que
nas circunstâncias atuais esse não era um deleite que ela pudesse permitir a si
mesma.
Não era ela realmente que Esteban queria, María
procurou lembrar a si mesma com uma
dolorosa relutância. Ele estava expressando um desejo natural por uma mulher
que na realidade era uma ilusão: sua esposa, a mulher com quem acreditava ter
um casamento normal e em quem ele compreensivelmente achava que podia confiar.
Mas ela não era essa esposa. Era apenas alguém a quem Esteban uma vez havia
pago para realizar uma cerimônia de casamento com ele, alguém por quem ele não
se interessava pessoalmente. E como se tudo isso não fosse suficiente, ela era
também inferior em termos de status e sucesso.
Tentando entender o ar de desespero que ela
mostrava em seu rosto, Esteban tinha a testa franzida quando ele procurou
tocá-la.
— María ...
— Nós não temos esse tipo de relacionamento
— objetou María com a respiração
entrecortada.
Ignorando seu ligeiro passo atrás, Esteban segurou
os pulsos dela com seus longos dedos, impedindo-a de recuar.
— Eu não compreendo...
— Olhe, não é nada sério e certamente nada
para se preocupar a respeito. Mas apenas entenda, eu na verdade não tenho muito
valor na sua vida. Quando você recuperar a memória vai se lembrar disso e me
agradecer por ter lhe avisado...
Esteban se conteve. Olhava-a de cima com
seus olhos brilhantes, que deixaram de ser inquisidores e se afinaram com
suspeita.
— O que você fez para que eu devesse
tratá-la dessa forma?
Confusa com a reação dele, María ficou tão consternada que empalideceu.
— Eu não fiz nada!
Esteban parecia ter esquecido a própria
força, pois com o ímpeto com que a segurava arriscava-se a quebrar os
delicados ossos do pulso, o que a fez soltar um gemido de desconforto.
— Você está me machucando... Imediatamente
ele a largou, preocupado, pedindo desculpas, mas o que falou em seguida tornou claro
que o assunto não seria facilmente deixado de lado.
— Explique o que quis dizer sobre não ter
muito valor em minha vida.
— Apenas que fica tão ocupado com seu
trabalho que quase não se dá conta de minha presença — murmurou María com voz fraca.
— Se você foi infiel não faça disso um
mistério — Esteban disse com sua fala arrastada, numa brandura mordaz. — Apenas
arrume sua mala e saia da minha vida de novo.
— Não seja ridículo! É claro que não fui
infiel!
— Nós, os San román, temos o hábito de
casar com mulheres levianas — escarneceu Esteban com uma crueza que era
inteiramente desconhecida para ela, mas que continha uma impressionante carga
de presságio. — Mas não perdemos tempo em nos divorciar delas.
— Vou me lembrar disso — disse María ,
esforçando-se em vão para dar um sorriso despreocupado antes de sumir de novo
dentro do banheiro.
Esteban recuou um passo, desnorteado. Sua
mente aguçada estava agitada com rápidas e furiosas perguntas.
"Nós não temos esse tipo de relacionamento.
"Eu não tenho muito valor na sua vida." "Você fica tão ocupado
com seu trabalho que quase não nota a minha presença."
Que tipo de casamento era aquele em que,
embora sendo ambos jovens, eles já estavam ocupando quartos separados? Isso
teria sido escolha dele? María tinha
dado a entender que o relacionamento deles era da forma que ele queria que
fosse. Ele estava irritado com as conclusões que estava sendo forçado a tirar.
A idéia de fracasso não existia para ele. O instinto sempre o havia feito
lutar pela perfeição em todas as facetas de sua vida. Entretanto seu casamento
parecia estar em
dificuldades. Sem nenhum aparente desejo de censurá-lo ou
desafiá-lo, sua esposa o havia retratado como um marido viciado em trabalho e
indiferente às necessidades dela. Ele também tinha dificuldade em acreditar
que raramente dormia com ela. Mas o que mais podia pensar?
María se vestiu. Ela colocou uma descontraída saia
preta que terminava muitos centímetros acima dos joelhos, combinando com um top
justo verde amarrado com laços. Tendo consultado o relógio, telefonou para o
celular de sua irmã.
— Estive pensando em você o dia inteiro...
Como está Esteban? — perguntou Ângela ansiosamente.
— No geral ele está bem, mas a pancada na
cabeça lhe causou alguns problemas. Ele não é o mesmo inteiramente.
— O que quer dizer?
— Que, por enquanto, eu estou sendo útil
aqui... E apenas como uma amiga — María se apressou em acrescentar.
Nesses últimos quatro anos, ela não havia
contado à irmã a verdade a respeito de seu casamento. Tivera medo de que se o
fizesse Ângela perderia o respeito tanto por ela como pela instituição do
casamento. O que havia parecido uma mentira inofensiva aos ouvidos sensíveis
de uma garota de 13 anos, agora pareceria muito mais desonesto e menos
perdoável. Mas sabia que não podia permitir que a irmã mais nova continuasse
acreditando que tivesse contribuído de alguma forma para o fim de seu
casamento.
— O que exatamente está errado com ele? María
tomou fôlego e explicou rapidamente.
...
— Você sabe o que isso significa? —
exclamou Ângela. — Isso vai dar a você e Esteban uma chance de um recomeço
totalmente novo!
— Não há possibilidade de nada semelhante.
— María suspirou, com o rosto se
anuviando de apreensão. — Eu apenas quero ajudá-lo... só isso.
Quando ela desceu as escadas, Demetrius a
conduziu para a sala de jantar iluminada por velas onde a mesa cintilava com
louça de cristal transparente e talheres de prata maciça. Lírios frescos com
pétalas lisas e brancas como neve ornamentavam a madeira polida.
— A mesa está simplesmente linda — dizia María
ao mordomo quando Esteban entrou.
— Estamos comemorando alguma coisa? — perguntou.
María ficou cor-de-rosa e pegou seu copo de vinho
com a mão trêmula.
— Sua saída do hospital.
— Eu proponho um tema de conversa seguro —
disse a ela. — Fale-me de sua família.
María realmente não via problema em falar de suas
origens com ele.
— Não há muito a ser dito sobre minha
família...
— Seus pais? — Insistindo no tema, Esteban se
acomodou em sua cadeira com um ar de expectativa.
— Eles morreram... num acidente de carro na
França quando eu tinha 16 anos — explicou María num tom grave. — Minha irmã Ângela tinha 11
anos.
Esteban franziu o semblante.
— Quem assumiu o cuidado de vocês?
— Passamos a morar com um primo de meu pai.
María não via necessidade de
sobrecarregá-lo com a realidade sobre como aquela solução havia sido infeliz e
durado pouco.
— Ângela está no colegial agora.
— Aqui na Suíça? María se aprumou.
— Não. Na Inglaterra.
— Não tem outros parentes?
— Não. Minha avó praticamente me criou —
disse voluntariamente. — Ela era italiana e quando eu era criança ela morava
conosco, e por isso aprendi um pouco da língua.
— Entretanto você não fala em italiano
comigo — censurou Esteban, mas seus olhos a estavam perdoando porque ela havia
estabelecido um vínculo que ele respeitava entre a origem deles dois.
Ela se encolheu.
— Eu entendo muito mais do que posso
falar...
— Tudo é uma questão de praticar —
sentenciou Esteban, convicto.
— Não — insistiu María , erguendo o queixo
teimosamente e com uma expressão chorosa nos olhos. — Você uma vez riu às
gargalhadas do meu italiano! Você disse que eu parecia uma camponesa porque
usava muitas palavras que não se usa mais.
— Eu estava certamente brincando com você, cara
— respondeu Esteban divertido e satisfeito com o fato de ela ter esquecido
sua decisão de não falar do passado.
— Nós tivemos uma pequena discussão — ela
admitiu, séria. — Mas não quero falar sobre isso.
Era melhor ficar calada do que se arriscar
a dar a ele uma impressão errada, decidiu María apreensiva. Então ela se concentrou em comer e
a comida estava deliciosa. Demetrius encheu seu copo de vinho por pelo menos
três vezes. Ela recusou o café e disse que ia se deitar cedo porque estava
cansada.
— Mal passa das oito — assinalou Esteban gentilmente.
— Nunca fico acordada até tarde — respondeu
María secamente e levantou-se.
Esteban empurrou a cadeira e levantou-se.
Quando María passou perto dele, ele
segurou suas mãos.
— Uma pergunta você tem que me responder...
— Não... não fale assim — murmurou María preocupada.
Os olhos dele fixaram os dela com um brilho
duro de diamante, exigindo que ela não escapasse.
— De quem foi a idéia de usarmos quartos
separados?
María engoliu em seco.
— Sua... — respondeu, acreditando que essa
era a única resposta razoável que poderia dar.
Um sorriso caloroso se desenhou na bela
boca de Esteban. O coração dela bateu como se fosse um pássaro preso numa
armadilha. Ele largou suas mãos e ela se afastou, com os joelhos cambaleantes.
— Boa noite — sussurrou rápido e fugiu
dali. Dez minutos depois, com os dentes escovados e o rosto já sem maquiagem,
ela apagou a luz. Mergulhou na cama suntuosa com um suspiro reconfortante. Mas
sua adrenalina ainda estava alta demais para permitir que relaxasse e dormisse
e pensamentos incansáveis remoíam o passado, seus encontros iniciais com Esteban.
Ela havia se apaixonado por um homem com
quem nunca sequer tivera um encontro. Cerca de uma vez por mês ele voltava ao
salão onde ela trabalhava. Logo depois da primeira visita dele, como a limusine
e o valor da gorjeta haviam sido notados, a estilista sênior mais antiga
insistira em tomar o lugar de María . Para surpresa e contentamento de María ,
o próprio Esteban tinha se negado a mudar, pedindo para ser atendido por ela.
— Você se lembrava do meu nome? — perguntou
María .
— Eu descrevi você.
— Como? — ela se apressou em perguntar com
uma curiosidade indisfarçável.
— Você sempre fala muito?
— Se me disser como me descreveu, ficarei
calada — prometeu.
— Pequena, com lábios cor de púrpura, botas
altas.
Ela ficou emocionada com aquele retrato,
mas depois de cinco minutos esqueceu sua promessa de manter silêncio e logo se
aplicou em descobrir que idade ele tinha e se era casado ou não. Nas vezes seguintes
não seria verdade dizer que ele conversou com ela, mas pelo menos não se
esquivou de suas perguntas. María procurou conhecê-lo deixando-se conhecer
também. Ela lhe perguntou o que ele fazia para viver.
— Trabalho em um banco — foi a resposta.
Muito tempo depois ela notou quase que
acidentalmente o nome San Román no título de um artigo na sessão de negócios
de um jornal de domingo. O artigo lhe revelou que ao invés de meramente
trabalhar num banco, Esteban era dono de um.
No dia em que o ouviu lamentar sobre o
testamento do avô e a possível perda da residência da família, que ele parecia
amar tanto, ela entrou na conversa de Esteban por puro impulso e ofereceu-se
como "falsa" esposa. Interrompendo a conversa telefônica, ele a
observou incrédulo.
— Bem, por que não? — continuou ela, com o
rosto vermelho pelo próprio atrevimento, mas mesmo assim ansiosa pela chance
de fazer alguma coisa por ele. Na verdade, qualquer coisa que o fizesse mais
propenso a prestar atenção nela e, talvez, até gostar dela.
— Deve haver mil razões para esse
"não" — refutou Esteban numa sentença fria.
— Provavelmente porque você é um homem cauteloso
demais, o que torna as coisas muito complicadas — assinalou ela, gentilmente.
— Mas se trata de um problema simples. Você precisa de uma falsa esposa para
manter a propriedade de sua casa, e eu resolveria isso...
— Eu me recuso a discutir essa questão com
você. Você se intrometeu numa conversa pessoal.
— Talvez deva pedir ajuda a uma de suas
amigas e deixar de se comportar de um modo tão altivo — sugeriu María .
— Onde aprendeu a falar italiano assim,
como uma camponesa?
— Como o quê? O que há de errado com meu
italiano? — ela atirou de volta, perturbada com o insulto que ele teria
pretendido fazer.
Esteban começou a rir.
— Você usa palavras arcaicas e expressões
que...
— Só às vezes — disse María furiosa. — Você é incrivelmente rude!
— Você interrompeu uma conversa
confidencial e me fez uma proposta ultrajante. O que esperava?
— Eu estava me oferecendo para ajudar
você...
— E por quê? Nós não passamos de estranhos
— disse Esteban, escarnecedor.
Ferida, ela apenas abaixou a cabeça e deu
de ombros, concordando.
— Desculpe-me pelo que disse...
— Não parece atraente assim amuada...
María ergueu a cabeça com uma rapidez surpreendente.
— E o que você acha atraente em mim? —
pressionou ela, esperançosa e muito pouco sutil nos seus 19 anos.
— Nada — informou Esteban secamente.
— Ora, vamos... Você não está sendo
sincero... Deve haver alguma coisa razoável em alguma parte de mim — disse com
jeito persuasivo.
Observando-o no espelho ela o viu sorrir.
Aquele raro e altamente carismático sorriso que fazia as palmas de sua mão
suarem. Mas ele ainda se recusava a ser ajudado. Três dias depois Esteban lhe
telefonou quando estava no trabalho e pediu para ela almoçar com ele em um
hotel.
— Assunto de negócios — esclareceu, antes
que ela fizesse uma idéia errada.
— Não estou com roupas adequadas — ela admitiu
alegremente.
Quando Esteban especificou os termos do
contrato de casamento de conveniência que ela mesma havia sugerido, parecia se
portar terrivelmente como um homem de negócios. Ele a fez perder o apetite e
ela quase não comeu. Esteban expressou seu desejo de compensá-la por lhe fazer
esse favor. María refutou, dizendo que
se recusava a ser paga por isso. Então ele propôs uma quantia que lhe tirou o
fôlego.
— Pense bem e discutiremos isso da próxima
vez que nos virmos...
— Escute, se eu estivesse querendo
dinheiro, não teria me oferecido para fazer isso. Não seria certo receber
dinheiro para participar de uma cerimônia de casamento. Quero dizer... tudo que
você deseja é manter a casa que pertenceu a sua família por gerações e não tem
sentido você ter que pagar a mim ou a qualquer pessoa para isso!
Esteban a examinou friamente.
— Eu não quero entrar em assuntos pessoais,
mas você vive numa situação financeira muito restrita e provavelmente tem pouca
esperança de melhorar...
— Isso é uma questão de ponto de vista.
— Uma injeção financeira daria a você
possibilidades que nunca teve antes. Poderia voltar a estudar...
María olhou-o como se não gostasse da idéia.
— Não, obrigada. Para mim já basta o que
estudei. Não se trata de eu ter sido obrigada a fazer o que faço, entende? Eu
sempre quis ser cabeleireira, adoro isso!
— Você devia levar adiante seus estudos —
continuou Esteban, como se ela nem tivesse falado. — Expandir seus
horizontes, ser mais ambiciosa.
— Você me namoraria se eu fosse para a
faculdade? — perguntou María de repente
esperançosa. — Acho que você não ia querer esperar tanto tempo...
— Não seja irreverente. Eu apenas estava
tentando lhe dar alguns conselhos.
— E querendo me tentar com seu dinheiro.
E ele a havia tentado com êxito, porque nos
dias que se seguiram ela descobriu que podia mudar sua vida e a de sua irmã da
água para o vinho com apenas uma fração da grande soma que ele havia mencionado.
Se encontrasse um apartamento num lugar melhor, poderia afastar Ângela do
grupo de desordeiros com quem andava saindo. Se abrisse um pequeno salão de
cabeleireiro do qual fosse a dona, poderia fazer seu próprio horário de
trabalho e ficar mais tempo em casa com Ângela. Finalmente ela concordou em
aceitar um décimo da quantia que ele queria lhe dar. Estava seduzida pela
idéia do quanto poderia fazer com aquele dinheiro e só depois de ter aceitado o
cheque é que compreendeu que com isso perdera o respeito.
Enquanto tratava de abafar um suspiro por
um passado que não podia ser mudado, a mente de María retornou ao presente. E ela foi então
brutalmente tirada de sua sonolência pelo barulho de uma porta se abrindo. Um
segundo depois a luz iluminava o quarto. Atordoada e piscando seguidamente,
ela enxergou Esteban e forçou sua mente a ficar alerta novamente.
Antes que tivesse conseguido, entretanto,
uma mão segurou a ponta do lençol e puxou-o de seu corpo reclinado. Ela deixou
escapar um pequeno grito que misturava espanto e humilhação. Esteban se curvou
e tomou-a nos braços como se fosse um embrulho que tivesse vindo apanhar.
— O que você está fazendo? — exclamou ela
em voz aguda.
— De agora em diante, partilhamos a mesma
cama, minha cara — disse Esteban, dirigindo-se de volta para seu quarto com ela
nos braços.
— Não acho que seja uma boa idéia —
murmurou María arquejante.
Escrito por: ~ Vickitoria


1 comentários:
Amando!! Não abandone a fic por favor
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