Para sempre em seu coração Capitulo 5







O Castello San Román era um castelo medieval situado em um longínquo vale densamente arborizado perto da fronteira italiana. Um calmo lago de água cristali­na estendia-se aos pés dos muros de pedra, refletindo como um espelho a abóbada luminosa do céu azul e os majestosos picos cobertos de neve das montanhas. Tanto o cenário como a construção eram de uma be­leza comovente; María  entendeu por que Esteban deci­dira casar-se com ela para assegurar a posse da pro­priedade.
O helicóptero no qual haviam embarcado em Gê­nova aterrissou em um heliporto especialmente cons­truído. Esteban a tomou nos braços, com facilidade, para desembarcar e segurou a mão dela para percorrerem a distância que faltava.
— Está se sentindo bem? — perguntou ela preocu­pada.
— Estou só um pouquinho cansado, nada mais. Sua fala grave foi rápida, sucinta e marcada pelo aborrecimento de um homem acostumado a sentir-se sempre com um alto grau de extravasante energia.
— Eu entrei no meu escritório às cinco horas essa manhã...
María  parou estupefata.
— Você fez... o quê?
— Acontece que o Banco San Román sou eu. As coi­sas não andam sem mim — contou Esteban, secamente.
— Eu tinha que estar a par do que está acontecendo atualmente, me certificar de que os negócios podiam prosseguir sem mim e decifrar o que não conseguia entender.
— Eu não posso acreditar que menos de 24 horas depois que o doutor lhe disse para repousar, você foi para aquele miserável banco no meio da madrugada!
— disse María , inflamada em uma reprimenda trans­tornada.
— Fiz o que tinha que ser feito.
— Você realmente não respeita a própria saúde. Enquanto passavam sob a antiga entrada em arco do Castello San román, ele dirigiu a ela um olhar de impaciência.
— Você crê que eu podia simplesmente tomar um chá de sumiço? Se me ausentasse do banco sem ne­nhuma explicação isso causaria um pânico que aca­baria por prejudicar muito os negócios.
— E que explicação você deu? — retrucou María , vendo linhas que tinha quase certeza serem sinais de dor surgirem entre as sobrancelhas.
— Disse que o impacto do acidente tinha me dei­xado com um problema de visão dupla e que precisa­va descansar. Assim tive acesso a informações úteis de meus assistentes executivos sem provocar comen­tários.
— Muito bem pensado — admitiu María  com ad­miração, embora descontente.
— Eu disse ainda que aproveitaria a parada de tra­balho forçada para tirar umas férias com minha esposa.
— Meu Deus! E as pessoas ficaram surpresas? — perguntou María , engolindo em seco, pois a reação de surpresa de Demetrius à notícia de que Esteban tinha uma esposa lhe dera a impressão de que, à exceção de tia Alice, ele havia mantido o casamento em segre­do. Portanto, uma referência que parecesse casual ao fato de ter uma esposa certamente causaria espanto no banco.
— A surpresa deles foi compreensível — assina­lou Esteban. — Eu não tenho o hábito de tirar folga. Aliás, você deveria ter discutido comigo a questão de barrar todas as chamadas telefônicas para mim.
María  ficou vermelha.
— Você teria insistido que podia atender.
— Por um curto período, foi uma boa decisão. Tendo respondido à saudação respeitosa de uma governanta a quem ele se dirigiu como Florenza, Esteban silenciou ao pé de uma escada de pedra.
— Mas não tome atitudes a meu respeito sem me consultar antes — concluiu ele com um tom de cen­sura comedido.
Afligida com aquela reprovação, María  abriu a boca para começar a responder, irritada. Mas ele, de modo brincalhão, pressionou seus lábios entreabertos com o dedo indicador e ela estremeceu, sentindo de repente e dolorosamente o tamanho e a força do corpo esbelto e rígido de Esteban, que se aproximou do dela.
— Você sabe que estou certo...
— Não, eu não acho que esteja certo... O que está havendo?
Esteban estava olhando para baixo, na direção dela, concentrado e pensativo. Por uma fração de segundo, seus cílios negros se abaixaram e ele franziu o rosto antes de erguê-los novamente para olhar para ela com um ar aturdido e indagador.
— Você correu pela rua atrás de mim...
Ao ouvir aquela estranha afirmação, María  olhou para ele sem entender. Mas quando ele levantou, in­seguro, uma das mãos até a testa úmida de suor, ela logo reagiu:
— Esteban? Pelo amor de Deus, venha aqui e sente-se.
— Não... — respondeu Esteban quase rudemente e colocou um dos braços em volta da cintura dela, conduzindo-a. — Nós vamos para cima conversar sobre isso em particular.
— Conversar sobre o quê? — murmurou ela, com os nervos latejando.
Então algo lhe ocorreu e ela entendeu o sentido de “você correu pela rua atrás de mim".
— Você acaba de lembrar alguma coisa do passa­do... — arriscou María , com o estômago revirando de tanta tensão. — E você se lembrou de algo a meu respeito...
— Foi como se alguém tivesse estampado uma fo­tografia velha diante de mim...
Com um movimento impaciente, Esteban escancarou uma porta que dava para uma elegante sala de recep­ção. Embora aquele pequeno relance de memória perdida o tivesse desconcertado, ele parecia ter ga­nhado força a partir dele.
— Você estava tentando me devolver a gorjeta que eu deixei...
— Sim...
Ela apertou as mãos, depois as soltou e juntou-as de novo, curvando-se.
Esteban olhava para ela atordoado e descrente.
— Por que eu estaria dando gorjeta para você? Isso foi alguma piada ou algo assim?
María  ficou terrivelmente pálida e sentiu-se ferida como se ele tivesse batido nela. Já podia ver um abis­mo se abrindo entre eles. Ela não era o que ele espe­rava que fosse. Ela não era, nem nunca poderia ser, parte de seu mundo privilegiado.
— Eu tinha acabado de cortar seu cabelo...
— Meu cabelo? — Esteban olhou para María  como se ela tivesse repentinamente começado a fazer gra­cinhas para diverti-lo.
María  apertou os lábios e fez um firme sinal afir­mativo com a cabeça.
— Eu sou... eu sou uma cabeleireira. O serviço pelo qual você me deu a gorjeta aconteceu na primei­ra vez em que nos encontramos...
— Inferno! Eu posso me lembrar de tudo o que estava sentindo e pensando exatamente naquele mo­mento na rua! Você me atingiu totalmente — admitiu Esteban com uma franqueza cortante, voltando para ela um olhar feroz. — Eu queria colocar você dentro da limusine, entrar em um hotel e passar ali todo um fim de semana.
Um rosado quente encheu o rosto oval dela e de­pois desapareceu lenta e dolorosamente. Bem, pelo menos ele não estava lhe apresentando nenhuma fal­sa história sentimental. Ela devia estar feliz por saber que Esteban a tinha achado atraente mesmo sendo muito orgulhoso para demonstrar isso. Mas não estava fe­liz. Estava ferida e furiosa. Passar um fim de semana? Era só para isso que ela parecia servir? Uma mulher fácil disposta a ir a um hotel com um homem que mal conhecia para sexo casual? A angústia levou seus pensamentos agitados até esse ponto. Sim, ela teria ido. Talvez não nesse primeiro dia, mas depois, se ele tivesse pedido, ela teria ido porque naquele período era tão tola que ficaria com qualquer coisa que pudes­se ter. Mesmo se isso significasse apenas o lado físi­co, reconheceu com a garganta embargada por lágri­mas zangadas.
Scusate! Eu não devia ter dito isso — falou Esteban, recostando-se contra a parede e lutando visivel­mente para controlar a exaustão que pesava sobre ele.
— Não se preocupe em me magoar. Não sou feita de vidro — afirmou María , em um tom falsamente vivaz. — Por favor, vá se deitar um pouco. Você não parece bem.
Soltando a gravata e desabotoando a camisa ali onde estava, ele caminhou pesadamente até o quarto ao lado.
María  o viu afundar o corpo na cama e deixar cair a cabeça sobre o travesseiro. Ele não havia nem mes­mo tirado os sapatos. Ela puxou as cortinas nas jane­las. Com os olhos semicerrados, Esteban lhe estendeu a mão em um gesto de agradecimento e conciliação.
— Você já devia saber a essa altura que eu tomo minhas decisões, cara mia.
— Não há problema quanto a isso — garantiu-lhe María  carinhosamente, vindo para perto dele e sen­tando-se na cama para enlaçar com seus pequenos dedos os rígidos dedos quentes dele. Não, o desejo dele de tomar as próprias decisões não era um proble­ma desde que essas decisões estivessem de acordo com as próprias conclusões dela.
— Aquilo que eu disse... Aquele lampejo de me­mória me apanhou desprevenido e eu fui rude.
— Não, rude não — respondeu María  numa voz baixa e muito doce, pois ela estava determinada a relevar a dor que ele tinha lhe causado. — Talvez um pouco direto demais, mas eu posso perdoá-lo dessa vez, já que por todo o resto do tempo você foi o ho­mem mais romântico que já conheci.
Esteban soltou a mão dela e seus longos cílios negros se ergueram sobre os escuros olhos  verdes espantados.
— Romântico, eu? — repetiu. Mesmo no estado abatido em que estava, sua ampla boca sensual estava pronta para se contrair com escárnio diante de tal idéia. — Você está brincando comigo...
— Não, não estou — garantiu María .
Esteban a puxou para si com um de seus fortes braços e murmurou sonolento:
— Você pode ficar aqui até eu adormecer.
Ela quase cometeu o erro de perguntar se a mãe dele fazia isso, mas felizmente se lembrou de que atitudes afetuosas não podiam ter se passado na in­fância dele. Ele tinha apenas um ano quando a mãe partiu com o amante para não voltar sequer para uma visita. Ele havia dito isso a ela, certa vez, ao responder às perguntas curiosas de María  com uma única frase sarcástica que tocara o coração sensível dela.
Ela tinha achado que o Dr. Caius fora otimista demais quando afirmou que a amnésia de Esteban era de natureza passageira. Agora percebia que o médico estava certo no diagnóstico. Em breve Esteban iria se lembrar de tudo e não precisaria mais dela. Teria ele realmente precisado dela em algum momento? Ou isso havia sido apenas o que ela desejava pensar?
Sentou-se em uma cadeira perto da cama para olhar Esteban enquanto ele dormia. De agora em diante, disse a si mesma, iria fazer com que o relacionamen­to deles permanecesse estritamente platônico. Quan­do Esteban se lembrasse da verdade sobre o suposto ca­samento deles, como iria encará-la? Acharia estranho o fato de ela ter dormido com ele? Esteban se importaria com isso? Ele era homem, avisou-lhe uma pequena voz interior, suavemente. Não ia perder muito tempo se afligindo sobre por que ela teria feito certas coisas. Não, ia apenas querer voltar a sua vida original. Pro­vavelmente ele se sentiria aliviado de saber que, em termos estritamente formais, não precisava realmen­te pensar em si mesmo como homem casado. Na ver­dade, quando tivesse recuperado a memória, prova­velmente iria rir de como as coisas se passaram.
Quando María  acordou estava deitada numa cama. A luz do dia penetrava por uma pequena fresta nas cortinas e reluzia sobre a cabeça altiva de Esteban, que olhava para ela. Em algum momento da noite ele havia se despido. A pele nua bronzeada es­tava a pouca distância da dela: incrivelmente, ela podia sentir os pêlos da coxa masculina contra as suas próprias.
— Que horas são? — murmurou, confusa pelo fato de estarem na mesma cama de novo.
Os olhos brilhantes pousaram nela.
— Sete horas. Dormi muito. É surpreendente...
— Eu não me lembro de ter vindo para a cama...
— Você não veio. Estava dormindo na cadeira. Não devia se preocupar tanto comigo, cara — repreendeu Esteban. — Eu sou ótimo em termos de cuidar de mim mesmo.
O timbre grave e rouco da fala pausada fez vibrar a espinha dorsal de María . Ela percebeu que estava involuntariamente se esgueirando para perto dele. Era como se estivesse possuída, pensou meio em pâ­nico com o próprio comportamento. Não devia haver mais intimidade, lembrou ela a si mesma tristemente. Num movimento rápido, obrigou-se a sentar.
Sem hesitar, Esteban abaixou as costas dela nova­mente, com o forte rosto decidido e os olhos ardentes, cheios de um franco desejo sexual.
— Você não vai a lugar nenhum, Senhora San román. O uso dessa expressão fez a consciência de María  doer mais.
— Mas...
— Você está muito inquieta essa manhã — disse Esteban, rindo, e enfiou uma coxa entre as dela para mantê-la imóvel sob ele. — Não tem permissão para sair da cama.
Enquanto María  olhava para as belas feições, o coração dela saltava e ela sentia-se enfraquecer de volúpia e desejo. Nesse instante ele levou a sensual boca masculina à dela. Sua urgência ardente fez a temperatura dela se elevar.
Com os olhos brilhando de prazer, Esteban despiu os seios de bicos rosados. Algo se estendeu fortemente na sua pélvis, fazendo com que ela contorcesse os quadris. Ele tocou sua carne intumescida e os dedos brincaram com os mamilos eriçados, provocando um pequeno grito de sua garganta.
— Você me quer, María mia — afirmou Esteban, com satisfação.
— Sim, quero...
María  não podia acreditar quão rápido havia se tornado impossível resistir ao que sentia. Ela ansiava pela boca dele e a habilidade erótica de seu toque. O corpo dela estava se incendiando de impaciência, avi­dez e calor. Essa ânsia tornou mais fácil para ela aba­far a pequena voz no fundo que a avisava de que esta­va fazendo algo errado.
Ávida pela boca dele, ela exultava com a paixão masculina. Puxou sensualmente para si a cabeça alti­va e mergulhou os dedos profundamente no cabelo, deslizando as palmas das mãos pela pele acetinada que cobria os ombros musculosos. Lambeu e achou o sabor da pele dele sublime. Formigamentos ansiosos percorriam todo seu corpo, levan­do-a a um ponto febril.
— Você me faz desejá-la tanto — disse Esteban, com voz rouca, colocando-a numa posição inesperada antes de penetrá-la firmemente.Uma onda de prazer voluptuoso a tomou numa corrente tempestuosa que fez com que ela choramin­gasse, abalada pelo deleite da sensação. O lugar úmi­do e sensível no fundo dela tinha se tornado uma for­nalha fumegante. O êxtase se apossara dela, não ha­via espaço para orgulho ou vergonha em sua reação apaixonada. Quando o doce prazer que se precipitava se tornou insuportável, ela se entregou a uma libera­ção explosiva, acompanhada por um grito, e sua excitação foi aumentada pelos estremecimentos de clí­max que o sacudiam simultaneamente.
Ainda mergulhada nos choques posteriores ao êx­tase e com os olhos enevoados por lágrimas de ale­gria, María  caiu de volta sobre os travesseiros, segu­rando o grande e poderoso corpo de Esteban junto ao seu. Ele a beijou longa, profunda e lentamente e ela precisou lutar para recuperar a respiração.
Ergueu os olhos para ele, maravilhada com sua forte beleza masculina. Uma onda gigante de amor e admiração a estava engolfando. Seus letárgicos olhos verdes acompanharam a inspeção do suave olhar de María . Ela enrubesceu, envergonhada, mas mesmo assim não conseguiu parar de admirá-lo. As maçãs do rosto talhavam feições audazes, com planos e concavidades orgulhosos. Ele era extraordinaria­mente belo, mesmo com fios de barba nas­cendo na firme linha do queixo.
— Você tira a minha respiração... — murmurou ela, encantada, com os dedos sobre a boca grande e sensual dele.
Ele tomou a mão dela nas suas e depois olhou para os dedos dela com nítida surpresa.
— Onde está sua aliança?
María  estremeceu, consternada. O fato de um ma­rido esperar que sua esposa usasse aliança era natural e isso devia ter ocorrido a ela.
— Eu... bem... Eu não quis usar uma... Recostado no travesseiro, Esteban a observou pare­cendo muito pensativo.
— Por que não?
Sob aquele olhar severo, María  ficou vermelha e gaguejou:
— Eu... eu apenas achei que as alianças estão um pouco fora de moda e não vi motivo para dar impor­tância a isso...
— Isso não me agrada — afirmou Esteban imediata­mente. — Eu me casei com você e desejo que use aliança.
Sentindo-se horrível por estar permitindo a si mes­ma inventar mais mentiras para manter a fraude, María  não conseguiu mais suportar o olhar dele.
— Vou pensar sobre isso.
— Não, nada de pensar. Eu vou comprar alianças. E você vai usá-la e ponto final — afirmou Esteban rude­mente, saindo da cama e vestindo uma bermuda preta.
Tendo andado até o meio do quarto, ele se deteve e voltou-se para ela. Seu rosto estava impassí­vel e seus olhos brilhantes pareciam decididamente desafiadores.
— Sabe, você nunca me disse por que minha espo­sa ainda era virgem...
— E não vou dizer enquanto estiver falando comi­go nesse tom — retrucou María , tensa e na defensiva, sentada ereta na larga cama e segurando firme­mente em volta de si o lençol, como se este fosse seu refúgio numa tempestade.
— Você vai ter que se sair melhor do que isso, cara mia — disse Esteban lentamente.
Os olhos dela reluziram e María  respondeu agres­siva para ele, em italiano.
— Não, não vou! Quando você tiver recuperado a memória vai perceber que não há nenhum grande mistério quanto a minha falta de experiência...
— Verdade?
— E você também não vai achar isso nem um pou­co importante — completou María .
— Diga-me só uma coisa — falou Esteban incisivo. — Por que eu me casei com você?
María  se calou e finalmente murmurou quase inaudivelmente:
— Você casou comigo pelas mesmas razões pelas quais todos se casam...
— Está dizendo que eu me apaixonei por você? — perguntou Esteban.
— Não estou dizendo nada...
Os olhos dela encontraram inadvertidamente os verdes dele brilhando e María  concluiu que devia dizer a ele o que esperava ouvir para que a questão fosse deixada de lado.
— Sim... você se apaixonou por mim.
Esteban deu um passo em direção a ela, com uma vi­sível tensão.
— Então eu vivi todo o conto-de-fadas?
— Por que não? — perguntou María , alteando a voz nervosamente.
— Por nada. — Esteban se curvou e tomou-a nos bra­ços, carregando-a para fora da cama. — Mas se eu vivi todo o conto-de-fadas, isso significa que você terá que ser definitivamente o tipo de mulher que de­seja tomar banho junto comigo — falou em tom brin­calhão.
— Isso é uma chantagem? — desafiou ela, tran­qüilizada.
Durante o café da manhã em um fascinante pátio ensolarado, ornamentado com exuberantes trepadei­ras floridas e vasos transbordantes de plantas, María  perguntou a Esteban sobre a história do Castello. O fato de que ele amava o local era óbvio para ela. Tentou não pensar sobre as mentiras que havia dito a ele na­quela manhã. Ele parará de fazer perguntas incômo­das e não parecia mais preocupado com o relaciona­mento deles. Como o Dr. Caius tinha lhe avisado para não dar motivos de preocupação a Esteban, ela achava que tinha feito o que era certo. Algumas pe­quenas mentiras alentadoras não iam provocar ne­nhum prejuízo duradouro, raciocinou ela.
— Preparei uma surpresa para você, ontem — reve­lou Esteban enquanto andavam pelo corredor de entrada.
— Que tipo de surpresa?
— Pensei que era tempo de resolver o problema do seu guarda-roupa — disse ele suavemente, abrindo a porta para uma sala de recepção enorme e lotada de gente.
Esteban havia mandado convidar vários repre­sentantes de designers de moda para visitar o Castello com seleções de vestuário. María  foi levada rapi­damente para o quarto ao lado para que fossem tira­das suas medidas enquanto todos tentavam chamar sua atenção. Ela estava em pânico. Como podia per­mitir que Esteban arcasse com a despesa de comprar-lhe um guarda-roupa inteiro? Mas como persuadi-lo de que não precisava de nada sendo que ele mesmo tinha visto as poucas peças que ela tinha levado?
Poucos minutos depois María  foi levada de novo à presença de Esteban. Estava vestindo um conjunto de saia e jaqueta de uma das últimas e mais especiais tendências da moda.
Esteban a examinou. Uma fragrância suave exalava da pele lisa e do cabelo prateado brilhante dela enquanto a jaqueta curta e ajustada e a saia ampla enfatizavam o estonteante formato de ampulheta de seu corpo e o bem torneado de suas pernas. O olhar aguçado dele brilhou com aprovação masculina.
— Você está deliciosa — murmurou com voz rou­ca, de modo que só ela ouvisse.
Pela primeira vez na vida María  se sentiu merece­dora de atenção especial. Ante o prazer da aprovação atrevida de Esteban, as imperfeições dela pareciam ter desaparecido. Mesmo enrubescida como uma maçã e sentindo-se extremamente embaraçada, mantinha ao mesmo tempo a cabeça altiva e sentia-se orgulhosa. Com a admiração de Esteban, não tinha mais por que se lamentar de suas formas imperfeitas, sua pouca altura ou excesso de curvas.
A partir de então, sentindo-se bem consigo mes­ma, María  tinha prazer por estar onde Esteban era o cen­tro. Ela experimentou roupa por roupa. Os tecidos caros pareciam maravilhosamente atraentes sobre a sua pele. Os altos espelhos nas paredes a refletiram em uma infinidade de facetas irreconhecíveis. Viu a si mesma rodopiar em um magnífico vestido de noite, um estrondoso terninho e uma série de vestidinhos leves e graciosos, dos quais cada um parecia ser o favorito de Esteban. Foram trazidos bolsas e sapatos para combinar. Como em um sonho glorioso, todos conspiravam para encorajá-la a seu jogo favorito, quando criança: o de se vestir e se arrumar.
No espaço de poucas horas adquiriu mais roupas do que jamais tivera em toda a vida. Sabia que não teria chance sequer de usar a maioria delas para si mesma e justificou que Esteban poderia devolvê-las quando ela tivesse voltado para casa de novo. Entre­tanto, escolheu vários conjuntos com calças e tam­bém camisolas, pois havia trazido muito pouca coisa. Sem fôlego e ainda no auge da excitação, vestiu uma saia creme e um top drapejado sem mangas.
— Nunca vou conseguir usar tudo isso! — adver­tiu a Esteban.
— Você é minha esposa. Deve ter tudo que desejar. Algo balançou na altura de seu coração e seus olhos se acenderam porque ela se sentiu dolorosa­mente consciente da farsa que vinha encenando.
— María ? — indagou Esteban.
— Você está sendo generoso demais comigo — disse ela firmemente.
—Você não sabe como ser generosa em retribuição?
Os fascinantes olhos dele fixaram os dela com uma provocação sensual e um sorriso instigante e tra­vesso se estampou em sua bela boca.
— Se você não sabe como... eu certamente posso lhe dar uma sugestão, María mia — disse Esteban com uma rouquidão sensual.
Ela pressionou suas coxas esguias uma contra a outra quando uma reação de formigamento e quentura lhe provocou uma sensação quase dolorosa de va­zio a ser preenchido em seu âmago. Chocada com a força das próprias reações, ela baixou os olhos, lutan­do contra a tentação o mais firmemente que podia.
Mas Esteban a ergueu contra si. Quando ela sentiu a extensão e a firmeza de sua ereção, sua face ardeu e ela quis se fundir com ele com toda a energia de seu ser. Os olhos dele se fixaram nos dela com um brilho dourado.
— Você está admiravelmente bonita, mas o que eu desejo mais do que qualquer outra coisa nesse mundo é que você tire essas roupas novas de novo — confi­denciou ele com dificuldade.
María  se moveu para trás. Fez algo que pensava que nunca poderia fazer. Com as mãos trêmulas ela segurou a orla de seu top e o retirou. Depois desceu o zíper da saia, deixou-a cair e pisou para fora dela.
— Suspeito que casei com você porque você me surpreende a cada momento — comentou Esteban com sua fala lenta enquanto a puxava de volta para si com mãos impacientes e a beijava na boca com uma pai­xão devastadora.
— É um encanto — disse María , olhando os dedos esticados. — Eu simplesmente não sei o que dizer... Eu realmente não podia imaginar algo assim...
Ela examinou com a ponta de um dedo toda a volta de platina do anel que usava e olhou para Esteban com uma gratidão embevescida. Uma aliança de casamen­to. Ela estava comovida até o fundo do coração por ele ter querido vê-la usando aquele símbolo que sig­nificava um compromisso marital.
Os olhos dele estavam tran­qüilos.
— Eu não vou falhar em nada, cara — confessou. — Quero que nosso casamento seja um sucesso.
Uma punhalada de constrangimento penetrou no véu de fantasia sob o qual María  havia ocultado to­dos seus receios sobre o papel que estava interpretan­do. Por quatro longos dias ela havia se recusado a pensar um minuto sequer no futuro. Tinha aproveita­do cada momento que passara com Esteban e, se isso era possível, havia se apaixonado ainda mais profunda­mente por ele. Esteban estava muito frustrado pelo fato de que ainda precisava recuperar a memória. A vinda daquela pequena recordação tinha aumentado ainda mais sua impaciência. Mas ele demonstrara uma for­ça de caráter extraordinária na forma com que havia lidado com sua amnésia e feito com que ela percebes­se ainda mais sua sólida firmeza e autodisciplina.
Agora, constrangida com a seriedade dele a respei­to de seu suposto casamento e atingida pela triste consciência de que ela não o poderia ter, María  des­viou sua atenção das belas feições dele e tentou em vez disso prestar atenção a sua volta. Afinal, era um dia lindo e a paisagem era magnífica. Eles estavam sentados no terraço de pedra de um restaurante exclusivo situado acima do lago em Lucerna. O céu estava densamente azul e a pitoresca cidade medieval se es­tendia abaixo deles.
— María ?
Esteban a chamou com a testa franzida, exatamente quando um homem alto de aparência austera e cabe­los louros veio até perto deles e disse "Esteban" em um tom de agradável surpresa.
Mostrando seu raro sorriso, Esteban imediatamente se levantou para cumprimentá-lo. María  ficou horro­rizada quando percebeu que o homem era Mike Newton, que havia sido testemunha do casamento deles. Um pânico terrível tomou conta dela e ficou paralisa­da diante do exame minucioso a que os olhos do ad­vogado a submetiam. Ele era alguém que sabia que ela era uma esposa falsa, paga para realizar um servi­ço. Tinha que estar surpreso em vê-la na Suíça em companhia de Esteban!
Com o coração batendo violentamente, María  con­cluiu em estado de alarme que não tinha escolha se­não enfrentar a situação.
— Jéssica e eu estamos passando um tempo com amigos — contava Mike Newton a Esteban, que cumpri­mentava a bela mulher grávida e de cabelos louros do advogado.
Voltando a cabeça altiva, Esteban dirigiu a María  um olhar indagador sobre sua falta de partici­pação. Com o suor formando gotas sobre o lábio su­perior e um sorriso fixo na boca tensa, María  levantou-se da mesa e aproximou-se com as pernas parecendo tocos de madeira.
— María ... — disse Mike Newton dirigindo-lhe um sorriso suave que, de alguma forma, contribuiu para que um calafrio de mau pressentimentos corres­se pela rígida espinha dela. — Quem é vivo sempre aparece!
Diante daquela exclamação, María  teve vontade de fugir, mas permaneceu de pé ali, como um condenado esperando pela sua execução. Felizmente Esteban tirou dela a atenção do advogado, começando uma conversa em voz baixa com ele. Enquanto os dois homens, já um pouco afastados, conversavam recostados na balaustrada de pedra, a acompanhante de Mike se aproximou dela.
— Eu sou esposa de Mike, Jéssica — apresentou-se, com um olhar pouco convidativo.
— Ah, sim...
Nervosa como um gato perseguido e incapaz de pensar em alguma coisa para dizer diante do olhar avaliador e hostil, María , muito tensa, olhou instintivamente para Esteban e Mike, perguntando-se ansiosa so­bre o que estariam conversando. Veio-lhe um desejo forte e urgente de escapar dali e, sussurrando um pe­dido de licença, dirigiu-se para o vestiário.
Por que Mike e Jéssica Newton olhavam-na como se ela fosse uma criminosa? Estava aborrecida e com calor e seu estômago revirava. Fez a água correr pe­las mãos enquanto lutava para controlar as emoções agitadas. Tudo o que fizera fora em benefício de Esteban. Para um homem com o temperamento dele, so­frendo da total perda de memória dos últimos cinco anos, Esteban estava bastante bem. Mas não estaria Mike Newton exatamente contando a Esteban agora que ela e seu casamento eram fraudes?
María  saiu do vestiário e deparou com Mike Newton esperando-a. Já pálida, ela ficou ainda mais branca.
— Qual é seu jogo? — perguntou o homem louro. — Esteban acaba de me explicar por que ele quase não foi visto depois do acidente.
— Fico feliz em saber que ele tomou alguém mais como confidente — murmurou María , perguntando-se se Esteban já sabia que ela não era exatamente a esposa que o deixara pensar que era. Sentiu um peso no peito.
— Não me trate como um idiota — reclamou Mike Newton, num tom duro. — O chefe do serviço de segurança de Esteban me telefonou ontem pedindo orientação. Imagine como fiquei estupefato ao saber que você tinha aparecido na clínica proclamando ser a Senhora San román! Esse encontro aqui não é nenhu­ma coincidência. Interrompi minhas férias para vir até aqui. Como pôde achar que um plano como esse poderia ser levado adiante?
Sob a investida do desprezo dele, María  estava tremendo. Um serviço de segurança trabalhava para Esteban? Eles tinham sido tão discretos que ela nem se­quer soubera de sua existência.
— Não há plano nenhum. Você contou a Esteban a verdade sobre nosso casamento?
— Acha que faria isso num restaurante? — escarne­ceu o homem. — Pretendo ir até o Castello essa tarde...
Com os olhos suplicantes, María  segurou deses­perada o braço dele.
— Deixe eu mesma contar a Esteban. Me dê até ama­nhã para resolver isso...
— Não. Eu lhe dou até essa noite. Isso já foi longe demais, e se você não é capaz de manter a palavra, cuidarei disso em seu lugar — avisou Mike Newton, sem ocultar a desconfiança.
María  precisou tomar muita coragem para encarar os olhos acusadores.
— Não sou o que você está pensando. Eu o amo. E na verdade sempre o amei...
O advogado deu um passo atrás.
— Seja como for — interrompeu ele, fazendo pou­co caso do que ela dizia. — Ele nunca perdoará tal traição.
Alucinada, María  voltou para o lado de Esteban, Jéssica estava pedindo a ele para fazer um discurso em uma festa de caridade. Mike juntou-se à esposa. Ale­gando estarem atrasados para um compromisso, Esteban interrompeu a conversa e conduziu María  de volta para a limusine.
— Mike estava estranho. — Seu rosto forte estava franzido. — Por que ele estava tão constrangido dian­te de você?
— Ora, você conhece o Mike... — murmurou ela com voz fraca.
— Conheço, sim. Eu o conheço bem e ele nunca aprendeu a me enganar. Eu senti um certo desrespeito na atitude dele para com você — confessou Esteban. — Achei isso ofensivo.
A culpa alfinetou María  profundamente. Ela não disse nada, percebendo que nessas circunstâncias não havia nada que pudesse dizer.
Só quando a limusine estacionou em frente a um salão de beleza exclusivo María  se lembrou de que no dia anterior havia marcado uma hora ali. Tinha decidido remover o tom rosa das pontas de seu cabelo porque concluíra que as madeixas de duas cores lhe davam um ar muito juvenil. Mas por que enganar a si mesma?, perguntou-lhe a voz no seu interior. Ela es­tava querendo se livrar das pontas rosadas em prol de uma aparência mais elegante para agradar Esteban. Que importava agora?
— María ? — Esteban chamou a atenção dela.
— Podemos circular com o carro por um minuto ou dois? — perguntou, sem se atrever a olhar para ele, pois estava tão confusa que nem conseguia pensar direito. Mas sabia o quanto estava relutante quanto a descer do carro e deixá-lo.
A verdade dói. Quem foi o primeiro a dizer isso? Da não fazia idéia. Só sabia que durante a semana que passara ela tinha sido tola o bastante para tentar viver seu sonho. Tinha anulado todos seus escrúpulos e se rendido ao conto-de-fadas de fingir-se a esposa de Esteban. E conseguira ser incrivelmente feliz, mais feliz do que jamais imaginara ser.
Mike Newton havia destruído suas patéticas pre­tensões. Ele também a fizera ficar consciente de que suas ações podiam ser julgadas como cruéis e egoís­tas. Mas ela nunca havia pretendido ferir ou magoar ninguém. Ao contrário, não havia desejado causar nem o menor dos danos ao homem que amava! Po­rém, só a lembrança de como Mike Newton olhara para ela a fazia suar frio. A aconchegante fantasia da qual faziam parte apenas Esteban e ela havia sido inva­dida e ela fora mergulhada em uma terrível confusão.
— Você quer faltar a esse compromisso? — per­guntou Esteban um pouco impaciente.
Ele era tão firme. Ele podia responder a uma per­gunta antes mesmo que ela terminasse de falar. Como ele se sentiria em relação a ela quando soubesse que o havia encorajado a viver uma mentira junto com ela? Iria ele, como insinuara Mike Newton, desprezá-la por seu comportamento?
— Então?
— Tudo certo... Eu decidi que vou fazer o meu cabelo — afirmou María  com um sorriso forçado quando se voltou para ele.
Os olhos dele deixaram perce­ber uma mistura de impaciência e espanto em relação à maneira estranha como o cérebro dela parecia fun­cionar comparado ao dele. Sair do carro ainda ficou mais difícil pelo fato de que Esteban parecia devastado­ramente bonito. Num movimento rápido ela se espi­chou no assento e beijou-o com um afeto doce e amargo ao mesmo tempo.
— Têm sido dias tão maravilhosos... — murmu­rou, insegura, pegando a bolsa e saltando da limusine antes que embaraços maiores pudessem criar-se entre ela e ele.
No salão de cabeleireiro ela se sentiu como se um vidro a separasse do burburinho daquela atividade fa­miliar. Desanimada, reconheceu que estava em cho­que. Ela também finalmente compreendeu aquilo com que sua mente relutava em se defrontar e aceitar: já chegara a hora de se retirar da vida de Esteban novamente. Ela concluiu que seria mais sensato voar direto para casa em Londres. Felizmente havia mantido seu passaporte dentro da bolsa e assim que tivessem ter­minado seu cabelo podia se dirigir para o aeroporto em Lugano. Tinha trazido apenas umas poucas rou­pas para a Suíça e o que estava deixando para trás não faria falta. Ela deixaria uma carta de explicação para Esteban na limusine. Não seria essa a melhor escolha? Quando ele conhecesse a verdade sobre o que ela ha­via feito, ficaria surpreso e furioso e provavelmente se sentiria muito bem por livrar-se dela. Qualquer opinião favorável que ele pudesse ter sobre ela seria completamente destruída.

Só agora que era forçada a pensar em como Esteban iria julgar seu comportamento é que verificava que havia ultrapassado o limite do honesto e aceitável. Reconhecer isso a afligiu duramente, pois María  nunca escondia de si mesma os próprios erros. Mas para ela a punição mais árdua era que nunca mais veria Esteban novamente...
— Ainda não tomou seu café? — perguntou Bree Witherspoon a María .
María  colocou uma pilha de toalhas recém-lavadas e desbotadas na prateleira atrás da pia.
— Não estou com fome...
— Mas devia estar. — O rosto de sua esteticista sênior estava preocupado. — Você não pode traba­lhar as horas que tem trabalhado com o estômago va­zio. Parece tão cansada...
— Pare de se preocupar comigo. Eu estou bem. Ela sabia que estava com olheiras sob os olhos e que não estava com sua melhor aparência. Não vinha dormindo bem e seu apetite havia desaparecido. Es­tava horrivelmente infeliz, mas não gostava de auto-piedade e estava fazendo o máximo possível para se comportar normalmente e recuperar o ânimo.
O que estava feito, estava feito. Fazia duas semanas que ela voltara da Suíça. Por sete dias Esteban havia sido o centro de seu mundo. Agora ele não estava mais ali e nunca mais estaria de novo, e ela tinha que aprender a viver assim. Mas o que também precisava aceitar era que o que ela compartilhara com Esteban havia sido falso e irreal e isso era o mais difícil de suportar.
— Seu cliente das 11 horas está aí... — cochichou Bree. — Ele também é bonitão... De onde tirou toda essa sorte?
María  ergueu a cabeça. Esteban estava de pé no meio do salão. A mão dela balançou com o vidro grande de xampu que estava segurando e o líquido começou a escorrer sobre a pia.
Ela ficou tão desconcertada pela visão dele de pé ali, que soltou uma exclamação em voz alta. Os olhos azuis dela se fixaram nele com um tão intenso de­samparo e desejo que ela se sentiu tonta. Vestido com um elegante terno que realçava as linhas esbeltas e poderosas de seu corpo imponente, com a cabeça altiva inclinada, Esteban estava examinando aten­tamente o ambiente à sua volta.
— Você é meu cliente das 11 horas? — perguntou ela num murmúrio.
Esteban abaixou a cabeça afirmativamente, perscrutando-a de uma forma que fez com que um rosado quente subisse à face dela. Vestida com uma camise­ta branca e uma calça preta de cintura baixa, acompa­nhada de botas altas, María  descobriu que estava de repente assustadoramente consciente de suas imper­feições. Aquela inspeção que os olhos dele lhe fa­ziam fez também com que se conscientizasse caloro­samente do próprio corpo e da familiaridade íntima e profunda que Esteban tinha com ele. Esteban, entretanto, nunca a tinha olhado em silêncio dessa forma. Perce­beu que havia alguma coisa diferente nele, mas não sabia o que era. Tudo o que sabia é que se sentia envergonhada.
— Precisamos ir a um lugar onde possamos con­versar — murmurou Esteban suavemente. Sem nenhu­ma razão ela sentiu o sangue congelar-se em suas veias.
— Estou... trabalhando... — murmurou, sentindo-se covarde até o fundo dos ossos.
Bene... então eu presumo que não seja proble­ma para você que sua equipe e clientela ouçam o que tenho a lhe dizer.
Com o belo rosto parecendo duro e impiedoso, Esteban passou facilmente de seu italiano de origem para o inglês.
— Começarei admitindo que não fiquei bem im­pressionado com o negócio que, como eu me lembro, você estabeleceu aqui com o meu dinheiro.
María  quase se encolheu de pé onde estava. Uma fração de segundo depois ela sentiu o abalo das con­clusões que tirou sobre o que ele acabara de dizer. Se Esteban se lembrava do acordo que haviam feito, ele certamente não estava mais sofrendo de amnésia. Evidentemente, desde que ela voltara da Suíça, Esteban tinha recuperado a memória dos últimos cinco anos. Embora o médico já tivesse previsto, María  estava abalada por constatar que Esteban agora se lembrava exatamente de tudo que havia acontecido entre eles.
Com o estômago revirado de tensão nervosa, ela se voltou para Bree e pediu-lhe para cobrir seus com­promissos até a hora do almoço.
— Podemos conversar lá em cima — disse a Esteban nervosamente. — Quando foi que recuperou a me­mória?
— Depois que você sumiu. Isso provavelmente ajudou. Afinal, você me fez viver uma vida que não era a minha — assinalou Esteban ironicamente.
— Me surpreende que tenha vindo aqui. Achei que não ia querer me ver novamente — disse, destrancan­do a porta de seu apartamento.
Fez-se silêncio. Esteban fechou a porta atrás de si. A saleta era muito estreita e escura e María  saiu dela, encaminhando-se para o que era ao mesmo tempo a cozinha e a sala de estar. Esteban examinou a mobília gasta e a pobreza geral e o desagrado transpareceu em seu rosto.
— A tentação de se aproveitar do meu infortúnio deve ter sido irresistível para você...
— Não foi isso! — María  estava chocada com a acusação. — Como pode dizer uma coisa dessas? Tudo o que me preocupava era você. Meu Deus, eu pensei que você estivesse morrendo!
Esteban havia apanhado uma carta que estava sobre a mesa e estava lendo.
— Você está endividada... — falou ele, surpreen­dido.
Embaraçada ao constatar que ele estava examinan­do um comunicado do banco instando-a a saldar um saque a descoberto que ela havia feito em sua conta, María  tomou-o de sua mão.
— Tome conta de seus negócios!
— Tudo o que lhe diz respeito é negócio meu, já que só assim me sinto melhor — informou-lhe Esteban mostrando preocupação em um tom suave.
María  não fazia idéia de onde Esteban queria chegar e de qualquer forma o que mais queria era defender-se da acusação de ter ido à Suíça na expectativa de enriquecer-se à custa dele.
— Deixe-me explicar o porquê dessa dívida. Gas­tei uma fortuna em dois vôos de última hora muito caros, de ida e volta à Suíça, e pagando horas extras para que minha equipe me substituísse enquanto esti­ve fora. Meus rendimentos não são suficientes para extraordinários como esses.
Sem se impressionar, Esteban levantou criticamente uma de suas sobrancelhas negras.
— E a pobreza foi a única desculpa para agarrar essa oportunidade de saltar direto para minha cama?
Ela fechou os punhos revoltada.
— Você me colocou naquela cama...
— E você realmente me obrigou a sair dela? — ironizou Esteban com um escárnio adocicado que a apu­nhalou como uma faca. — Você foi conivente e sabia exatamente o que estava fazendo. Só fazendo nosso casamento ser consumado podia garantir ter direito a exigir uma quantia substancial quando divorciar-se de mim.
María  estava completamente branca. Ela se sentia horrivelmente humilhada pelas suspeitas dele.
— Eu não vou exigir nada de você nem agora, nem nunca. Eu não entendo por que está pensando assim de mim. Foi um crime eu ter desejado ver você quan­do soube que tinha sofrido um acidente? Eu disse que sentia muito por tudo na minha carta...
Esteban deu uma risada mordaz que a fez tremer.
— Em todas as quatro linhas dela? Você nem teria podido ali me contar toda a verdade ou admitir a exten­são do seu arrependimento. Você desapareceu como por mágica e não me deixou nenhuma explicação.
— Naquele ponto eu não sabia o que dizer — mur­murou María  tensamente.
— Você fez uma bela representação, María mia. — Seus olhos brilhantes e condenadores confrontaram o olhar angustiado dela mantendo-se resolutos. — Você sabia o caminho para meu coração... Por toda uma semana confundiu minha cabeça todas as vezes em que eu lhe fazia uma pergunta incômoda!
Em uma tempestade selvagem de dor ante aquele impacto, María  pegou a caneca que estava sobre a mesa e atirou-a nele.
— Não! Não foi isso o que eu fiz! — gritou.
Irritantemente quieto, como se sua dignidade esti­vesse acima de qualquer reação, Esteban apenas ergueu significativamente uma sobrancelha enquanto o objeto batia na parede muitos centímetros à esquerda dele.
— Quando fica encurralada você é bastante infan­til, mas isso não surte efeito comigo. Nem tampouco lágrimas...
— Eu não vou chorar por você! — gritou María  bem alto. — Você vai ter que me torturar para conse­guir lágrimas!
— Lágrimas me irritam, assim como cenas emo­cionais e louça voando. Mas você deve esgotar seu repertório agora — avisou Esteban implacavelmente. — Se fizer papel de tola novamente em público, vou ficar muito zangado.
A tensão crescente estava fazendo a testa de María  latejar com uma dolorosa palpitação nervosa.
— Fazer papel de tola? Em público? Do que está falando?
Esteban tirou alguma coisa do bolso de dentro do pa­letó bem cortado e colocou sobre a mesa para ela ver. Era um recorte de revista e María  ficou desconcerta­da ao reconhecer que a mulher nitidamente mergu­lhada em lágrimas e com um rosto triste, na foto, era ela. A foto tinha sido tirada no último dia de sua esta­da na Suíça, quando entrava no aeroporto em Lugano, e ela não havia sequer percebido o fotógrafo. Em­baixo, algumas linhas escritas em francês.
— O que está escrito? — perguntou María  final­mente.
— "Extremamente rica, mas, mesmo assim, infe­liz" — traduziu Esteban resolutamente.
María  cruzou os braços.
— Bem, me perdoe se eu o deixei embaraçado, mas isso prova que eu estava aborrecida com a situa­ção que tínhamos vivido...
Esteban lhe dirigiu um olhar inamistoso.
— Nós? Quem foi que criou essa situação? Quem disse que era minha esposa? Quem penetrou na mi­nha casa e ganhou minha confiança?
María  descruzou os braços abruptamente. Os olhos dela brilhavam de transtorno e súplica.
— Ouça, tente compreender que eu apenas acabei indo longe demais. Quando cheguei na Suíça real­mente pensava que você estivesse muito ferido e que­ria ver você. Também acreditava que você tivesse perguntado por mim...
— Mas por que afinal eu iria perguntar por uma mulher que não via há quase quatro anos? Uma mu­lher que não significava nada para mim? — inquiriu Esteban. — E como podia ter perguntado por alguém se eu estava inconsciente?
Dando-se conta daquele fato óbvio, o rosto pertur­bado de María  se contraiu de tristeza. Sim, era muito improvável que ele tivesse perguntado por ela. Teria Ângela lhe contado uma pequena mentira? Ela inven­tara aquela afirmação comovedora em uma tentativa ingênua de encorajá-la a correr para Gênova para junto de seu marido?
Mas antes que María  pudesse terminar de fazer essa consideração, as palavras de Esteban ressoaram dentro dela em ecos cruéis. "Uma mulher que não significava nada para mim." Isso era o que ele havia dito. Era isso que pensava sobre ela. Que ela não era nada, não era ninguém. Bem, o que ela esperava?
Determinada a não deixar transparecer o quanto estava ferida, María  esforçou-se para voltar ao ponto que pretendia esclarecer antes que a franqueza cruel dele a atingisse como um soco no estômago.
— O Dr. Caius me orientou para não lhe dizer nada que pudesse perturbá-lo...
— Então você me deixou pensar que era casado? Você não achou que isso era um fato muito perturba­dor para um homem que se satisfazia em ser solteiro? — retrucou Esteban.
— Eu espero que você realmente aprecie sua liber­dade agora que sabe que nunca a perdeu...
— Eu não perdi mesmo minha liberdade. Você roubou-a de mim. — Seus olhos brilhantes e assombrados estavam cheios de acusação. — Você se pro­clamou minha esposa e agora circulam rumores de que eu sou um homem casado. E como, estritamente falando, eu sou um homem casado, não posso negar esses rumores e os paparazzi já conseguiram publicar uma fotografia sua.
Lágrimas de culpa correram dos olhos de María .
— Acredito que isso seja embaraçoso para você...
— Não fico embaraçado facilmente — cortou Esteban secamente.
— Eu acho que você não entende o quanto eu la­mento... — murmurou María  acabrunhada.
— Lamentar não é suficiente para mim. Você real­mente queria ser minha esposa.
A palidez de María  se transformou em uma febril cor vermelha.
Esteban dirigiu-lhe um forte olhar zombeteiro.
— Você queria tanto ser minha esposa que mentiu e trapaceou para estar nessa posição.
Vergonha e raiva pela humilhação que ele estava lhe infligindo perpassaram a mente de María .
— Eu sei que parece impróprio, mas...
— Não vou ouvir suas desculpas. Parece impróprio porque foi impróprio — frisou Esteban. — Você simples­mente tomou minha vida bem organizada e a reverteu. Eu terminei com minha amante por sua causa...
— Você... o quê? — Escancarando os olhos, María  ergueu-os para ele.
— A ruiva bonita... Ela era minha amante e eu me livrei dela porque você me fez acreditar que era casado.
María  apenas fechou os olhos. A ruiva bonita. Como ela podia ter se permitido acreditar em algum momento que um homem como Esteban San Román não tinha nenhuma outra mulher em sua vida e em sua cama? Como pudera ser tão ingênua quanto às pró­prias ilusões e tão egoísta? Ela tinha realmente revi­rado a vida dele. Culpa e vergonha a afligiram nova­mente, fazendo sua garganta quase se fechar.
— De modo que há agora uma vaga na minha cama e você está prestes a preenchê-la novamente.
— O quê? — Uma ruga de incompreensão for­mou-se na testa tensa de María .
— Você vai voltar para a Suíça comigo... María  estava estupefata.
— Por que eu faria isso?
— Não estou lhe dando opções. Você não me deu nenhuma quando me fez crer que eu estava vivendo um casamento de conto-de-fadas — disse-lhe Esteban em um tom de fria condenação.
María  empalideceu e tentou fugir do duro olhar dele.
— Não vejo nenhuma boa razão pela qual pudesse querer que eu voltasse para a Suíça com você...
— Vou usar você como você me usou e depois me livrar de você de novo, quando estiver cansado. Isso esclarece a questão?
— Você não está falando sério...
— Marquei de almoçarmos com sua irmã, portan­to é melhor você ir fazendo a mala.
María  sentiu um calafrio.
— Como vamos encontrar Ângela para o almoço? Ela está no colégio, a quilômetros de Londres...
— Enquanto conversamos ela está se encaminhan­do para cá.
— Mas como... quer dizer... Por que você marcou esse almoço?
— Tenho razões excelentes. Você acha que é a única capaz de tramar um ardil? Sou mestre em mani­pulações, María mia. — Esteban lhe dirigiu um olhar de pena. — Ângela pensa que estamos tendo uma feliz reconciliação e está maravilhada com a notícia, por­tanto você terá que comparecer com milhões de sor­risos e muito daquela sua boa conversa, superando-se para mantê-la feliz...
A pele de María  tinha ficado suada com o choque.
— Como, por Deus, você fez contato com minha irmã?
— Ela me telefonou essa semana e muito gentil­mente me pediu desculpas por sua atitude hostil logo que nos casamos.
— Ah, não... — murmurou María  em um desalen­to culpado porque compreendeu que fora por erro dela que Ângela havia procurado Esteban. Desde seu re­torno da Suíça, María  só tinha falado com a irmã por telefone, esquivando-se de todas as perguntas sobre seu relacionamento com Esteban. Não conseguira dizer a verdade, mas também não havia conseguido mentir.
— Eu nunca confessei a ela o motivo de nosso casa­mento porque tinha medo...
— Medo de que ela tivesse menos respeito por uma irmã que se casa com um homem por dinheiro? — atirou Esteban com crueldade. — Então vai ficar ali­viada em saber que deixei as ilusões dela intactas. Ela me disse que estava muito aborrecida porque parecia que estávamos separados de novo e perguntou se era por culpa dela.
— E você disse que estávamos tendo uma reconci­liação? — lembrou María  com um visível esforço para conseguir acreditar.
— Nós estamos tendo uma reconciliação... da mi­nha maneira, e se essa maneira se tornou apenas um ato punitivo da vingança você devia me agradecer por isso.
— Você acha que eu menti e fiz trapaça, que sou uma pessoa horrível... Eu teria que estar com a cabe­ça fora do lugar para ir a algum lugar com você! — revidou María .
Non c'e problema... Não se preocupe, então... — instigou Esteban. — Levarei Ângela para almoçar co­migo e contarei a ela toda a história desagradável do nosso relacionamento, do início ao fim...
— Isso seria uma coisa asquerosa! — interrompeu María , não conseguindo ocultar seu pavor.
— Ao contrário de você, eu apenas lhe contaria a verdade, como ela aconteceu. Fico feliz em saber que você está avaliando como sua conduta foi imperdoá­vel — falou Esteban, carrancudo, saindo da sala.
María  correu para a saleta atrás dele.
— Se você quer que eu me humilhe, tudo bem, mas deixe Ângela fora disso...
Esteban lhe dirigiu um olhar mordaz.
— Humilhar-se é coisa para camponeses. Você já devia me conhecer o suficiente para saber que quan­do quero alguma coisa, eu a consigo. Vai aprender a ser uma esposa San Román e vai me poupar o tempo e o esforço de arranjar outras amantes assumindo todo o papel...
— De forma alguma! — retrucou María .
— Mas você se esforçou tanto para colocar-se nes­sa posição... que não é indispensável, você sabe... — afirmou Esteban secamente, indo para a porta de entrada e abrindo-a — mas que certamente vale a pena ser repetida.
— Você não se atreveria a contar a Ângela o que fiz — suplicou María .
— Sim, me atreveria...
Ela sentiu um calafrio de consternação.
— Mas não iria ganhar nada com isso. Por que ser tão cruel?
— É o que você merece — Esteban a examinou com um ar pensativo. — Você abusou da minha boa-fé a ponto de eu lhe dar uma aliança de casamento e, antes de tirar você da minha vida de novo, pretendo acertar as contas.
— Eu não abusei da sua boa-fé... Eu... Esteban não parecia estar ouvindo mais.
— Uma limusine vem pegar você dentro de uma hora e meia para levá-la ao hotel onde vamos almoçar com Ângela. Eu a encontro lá. Vou a meu escritório em Londres, primeiro.
María  estava em pânico.
— Se eu deixar meu trabalho de novo, arrisco-me a falir, e isso não posso permitir porque...
Esteban a olhou de forma intimidadora.
— Pago suas dívidas...
— Você não pode fazer isso, Esteban. — Em seu de­sespero, María  o seguiu até junto da escada. — Se eu deixar Londres, quem vai ficar no meu lugar enquan­to estiver fora?
— Você contrata um gerente. Eu cubro as despe­sas... — disse Esteban começando a descer a escada.
Desalentada, furiosa mas descrente, María  ainda o avisou:
— Se usar meu relacionamento com Ângela como alguma espécie de armadilha, nunca vou perdoar você.
Com o rosto parecendo frio e impassível, Esteban dirigiu-lhe um olhar sombrio.
— Pensa que me importo?
Abatida, María  se recostou na parede, tentando respirar lenta e profundamente para acalmar-se. Ele com certeza gostaria de puni-la revelando tudo a Ângela. Não podia correr esse risco. Pensou que a irmã ainda podia compreender que ela tivesse contra­tado o casamento há quatro anos, quando a vida das duas era miserável, mas que ficaria muito magoada por ela tê-la feito acreditar que aquele acordo era um casamento de verdade.

Esteban havia escolhido, com precisão infeliz, a única ameaça capaz de fazer María  submeter-se totalmente a ele.


Escrito por: ~ Vickitoria

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4 comentários:

Anônimo disse...

Tadinha da Maria...
Ela só queria ajuda-lo e acaba se dando mal...será?

Anônimo disse...

A cada leitura mais apaixonada

Candy DigitalArt disse...

Tem post novo em.... :* :* :* :*

Candy DigitalArt disse...

Tem post novo em.... :* :* :* :*