Para sempre em seu coração Capitulo 7







No dia seguinte, contemplando o café da manhã com um apetite que mais uma vez desaparecera, a soberba dele não a preocupava. Na verdade, ela se sentia bem nauseada. E não era a primeira vez, nos últimos dias, pensou. Teria contraído algum vírus? Mas não era como se ela se sentisse verdadeiramente mal, era mais como se algo não estivesse bem. Só quando analisava o enigma percebeu que seu corpo também estava se comportando de maneira es­tranha. Com uma contagem rápida nos dedos consta­tou que a menstruação estava atrasada. Contou de novo, mas as datas precisas fugiam-lhe porque ela nunca se preocupara em manter um registro preciso do ciclo. Nesse instante, gelou com o reconhecimen­to tardio: desde a primeira noite passada com Esteban, nada tinha feito para prevenir uma possível gravidez. Nem ele.
Tudo entre ela e Esteban tinha acontecido rápido de­mais. A intimidade entre ambos não fora planejada com antecedência. Em nenhum estágio lhe passara pela cabeça o risco de conceber uma criança. Teria Esteban também sido tão descuidado quanto ela? Ou ele supunha que ela tomava anticoncepcionais? Por Deus, como se metera numa situação dessas?
Decidiu esperar alguns dias para fazer um teste de gravidez.
Demetrius trouxe-lhe o telefone. Era Esteban.
— Queria ter ligado na noite passada, mas a reu­nião acabou muito tarde — asseverou.
— Não se preocupe, eu não estava mesmo espe­rando notícias suas.
— Temos uma festa amanhã, cara.
— Oh, então vou ganhar uma saída noturna por bom comportamento — alfinetou ela.
— E uma noite desagradável. Dou um prêmio se adivinhar o que eu preferiria fazer — cortou com de­licadeza. — Não sou animal festeiro.
Enquanto se vestia naquela noite, ela aguardava com a respiração contida o momento em que a porta de comunicação entre os dois quartos se abriria. Tra­jando um vestido de noite verde que lhe desnudava os ombros e acentuava a perfeição cremosa da pele alva, ela finalmente desceu as escadas. Esteban andava pelo saguão. Emoldurados por pesadas pálpebras, seus olhos verdes  examinaram-na, resplan­decendo como esmeralda de aprovação.
— Você está bonita. Passou por minha mente que você poderia tentar ganhar pontos optando por usar algo totalmente inapropriado — admitiu Esteban.
— Eu não seria tão infantil. — Ela pigarreou. — Por via das dúvidas, voltei a usar a aliança.
— Por que não? Você se esforçou muito para isso — zombou Esteban com delicada frieza.
O rosto dela flamejou como se ele a houvesse esbofeteado.
— Eu o odeio quando fala assim comigo!
— É tradicional em minha família o desabrochar do ódio entre os casais.
— Sua mãe apaixonou-se por outra pessoa. Isso não quer dizer que ela odiava seu pai.
— Ela já amava o mesmo homem quando casou com meu pai. O amor de meu pai transformou-se em ódio quando ele percebeu a verdade.
— Por que, então, ela casou com ele?
— Dinheiro — explicou Esteban de maneira sucinta, enfiando-a na limusine que esperava na frente da casa. — Também minha avó era rapinante, porém mais digna. Ela deu um filho a meu avô Anthony e informou-o de que havia cumprido seu dever. Embo­ra permanecesse sob o mesmo teto com meu avô até a morte, nunca mais viveram como marido e mulher.
— Parece errado que sua mãe tenha casado com seu pai enquanto amava outro homem. Mas talvez houvesse pressões sobre ela que não conhecemos ou talvez até ela pensasse que estava fazendo a coisa certa e que aprenderia a amar seu pai — argumentou María  na tentativa de encorajá-lo a julgar com menos rigidez os erros dos outros.
— Essa possibilidade nunca me ocorreu — disse Esteban secamente. — Você supõe que ela me deu à luz na esperança de aprender a me amar também?
María  recuou ante o ridículo da sugestão.
— Só estava tentando dizer que há dois lados em qualquer casamento infeliz e que circunstâncias ate­nuantes podem ter ocorrido... Queria confortá-lo.
— Não preciso de conforto. — Com o rosto mos­trando força e tensão, Esteban falou com ácida clareza:
— Nem mesmo me lembro de minha mãe. Quando ela morreu eu tinha 4 anos de idade.
— Morreu de quê?
— Se afogou.
— Sinto por você não tê-la conhecido. Sim, sei que você me considera muito sentimental — reco­nheceu ela. — Mas se soubesse o quanto gostaria de ter minha mãe de volta, ainda que para falar com ela por apenas cinco minutos... faria qualquer coisa pela oportunidade. Amava muito meus pais e ainda sinto uma falta terrível deles. Eles me ensinaram a pensar o melhor das outras pessoas, embora eu tenha apren­dido cedo que o mundo não é sempre um lugar bom.
— Quem lhe ensinou?
— A prima de meu pai, Sue. No exato momen­to em que soube que meus pais haviam morrido, ela entrou em ação. Convenceu o Serviço Social de que era capaz de criar Ângela. Consideravam-me muito jovem e eu ficava aterrorizada com a idéia de que eu e minha irmã fôssemos separadas. Sue levou nós duas para uma grande casa alugada... — María  recor­dou com dor no coração.
— Então? — indagou Esteban.
— Sue e o namorado nos espoliaram até o últi­mo centavo em que puderam botar as mãos. Ela obte­ve a guarda do dinheiro que nossos pais deixaram. Não era muito, mas o suficiente para que Ângela e eu vivêssemos confortavelmente por vários anos. Um dia, quando não havia mais nada para roubar ou ven­der, ela saiu e não voltou mais...
— Presumo que você chamou a polícia. Malversa­ção de fundos numa situação dessas é crime.
— Não ia trazer o dinheiro de volta. Eu tinha coi­sas mais importantes com que me preocupar, tais como encontrar um local mais barato para morar e cuidar de minha irmã — contra-atacou María .
Num inesperado gesto de simpatia, Esteban fechou a mão sobre os dedos cerrados dela.
— Você confiou em Sue porque ela era sua pa­rente. A traição deve ter sido um choque considerável para você.
— Sim...
— Quando tive amnésia, não tinha outra escolha senão confiar em você —- murmurou Esteban com fero­cidade de cão bravo, os olhos fixos sobre ela como que numa nova intenção de punição. — Acreditava que você era minha esposa.
Com violência, María  libertou a mão do aperto da dele.
— Não precisa mais me dizer... Sei onde quer che­gar. Tudo que fiz foi tentar agir como esposa. Não fui para a cama com você por nenhum outro motivo, as­sim como não tenho a intenção de ganhar dinheiro com nosso casamento!
— Só o tempo vai provar a veracidade dessa afir­mação.
— Me diga: qual é seu problema? Você é um ho­mem incrivelmente bonito e sexy e mesmo assim pa­rece incapaz de aceitar que qualquer mulher possa querê-lo só por você mesmo! — María  retrucou com força, perdendo o fôlego.
— Ou por meu corpo — contra-atacou Esteban num tom mais suave que a seda.
Com uma brusquidão que a fez balançar, María  perdeu a cabeça numa explosão de fúria que não pôde controlar.
— Escute, essa é uma das coisas que não consigo suportar em você. Quer ter sempre a última palavra, que é sempre um comentário que pretende ser muito sábio. É tão convencido de que nunca erra que me culpa por tudo. Se o teto caísse agora sobre nós, diria que foi por minha culpa!
Si... — respondeu Esteban à prova de ataques, com um brilho no olhar atento. — Sabe-se que gritos cau­sam avalanches.
María  inspirou tão fundo no esforço de conter-se que honestamente teve medo de explodir. Ela, no en­tanto, via os traços extravagantemente belos dele através de uma névoa vermelha. Numa breve pausa nas hostilidades, o motorista abriu a porta.
— Só quero que você saiba que eu õ odeio! — sussurrou María  quando ele se sentou ao lado dela no helicóptero.
Ele entrelaçou seus longos dedos morenos nos ca­belos dela e imobilizou-lhe o rosto para o avanço de seus fortes lábios. Ela jogou-se nesse beijo como se tivesse pulado num precipício. Numa lenta e progres­siva queda, experimentou uma excitação quente, sel­vagem e doce. A penetrante carga elétrica da fervente sensualidade dele mantinha-a prisioneira e ela delei­tava-se com sua paixão desenfreada.
Ele se afastou alguns centímetros e fixou no olhar dela seus olhos brilhantes e bravios.
— Só demoraremos quarenta minutos na festa...
— Esteban...
— Você me faz queimar por você... Eu quase não consegui dormir uma noite enquanto você esteve em Londres. Mas agora você é minha novamente e conti­nuará minha até eu decidir o contrário, María mia.
O helicóptero deixou-os num imenso e opulento iate onde foram recebidos pelos anfitriões como reis. María  estava pasma. Só tinha consciência de Esteban, a figura grande, poderosa, esticada e inquieta a seu lado, com o possessivo braço masculino ancorado em suas costas. Mas a necessidade de cortesia social o tirou de junto dela quando o anfitrião o chamou para encontrar um velho amigo.
María  pegou sua intocada taça de vinho. A música e o burburinho de vozes a estavam assoberbando. Sua anfitriã ia lhe apresentando uma verdadeira procissão de rostos estranhos. Os vestidos claros e o brilho das jóias fabulosas das mulheres obscureciam a visão dela, fazendo-a piscar. A leve movimentação do iate também não ajudava. Uma ânsia a assaltou e ela sen­tiu-se horrivelmente enjoada e tonta. Quando se vi­rou, desesperada em busca de um assento, era tarde demais e ela escorregou, desfalecendo num exaurido desmaio.
Quando recobrou a consciência, Esteban a fitava com olhos arregalados.
— Calma, cara. Eu a estou levando para casa.
Com a ameaça da volta do torpor, ela rezou para que a náusea se desvanecesse. Ele a pegou nos bra­ços, trocou algumas palavras com seus anfitriões preocupados e levou-a de volta ao deque superior para embarcar no helicóptero.
— Acho que nunca vi um desempenho mais mági­co — disse-lhe Esteban com zombaria assim que a aero­nave levantou vôo.
Mais tarde ela se lembrou da afirmação dele de que ficaria na festa menos de uma hora e só então concluiu que ele honestamente acreditava que ela en­cenara um desmaio falso para agradá-lo e antecipar ainda mais a partida. As oscilações do vôo não alivia­ram o desconforto de seu estômago e a conversa esta­va além de sua capacidade. No fundo de sua mente perguntas preocupantes espreitavam e aumentavam sua tensão. Por que ela desmaiou?
Esteban desembarcou do helicóptero logo após o pou­so. Em seguida voltou para ajudar María .
— Foi o desmaio mais impressionante que já vi. Por um instante cheguei a pensar que era verdadeiro.
— Mas foi... Acho que enjoei com o balanço do iate — murmurou María  recostando-se nele porque suas pernas ainda não estavam confiáveis.
— Enjôo? — exclamou Esteban.
— Ainda não me sinto muito bem — desculpou-se María .
Esteban suspirou, inclinando-se para pegá-la nos bra­ços outra vez.
— Enjôo... — Falou admirado. — Você só estava quinze minutos a bordo.
Uma hora depois ela já estava na cama, vestindo uma discreta camisola. Sentado ao pé da cama, Esteban a observava com atenção.
— Não quero jazer aqui como um cadáver — pro­testou ela. — Já estou me sentindo bem.
— Pessoas saudáveis não desmaiam — disse Esteban com voz arrastada e tom censurador, como se ela pu­desse ter feito algo para evitar o desmaio. — Se a médica disser que sim, você poderá se levantar de novo...
— Médica... que médica? — indagou ela ofegante. Alguém bateu na porta.
— Deve ser ela. Chamei-a da limusine. Tomada de medo, María  sentou-se.
— Não quero ver nenhuma médica... Pelo amor de Deus, não preciso!
— Deixe-me decidir isso.
— O que você tem com isso?
— Sou seu marido e, portanto, responsável por seu bem-estar — comunicou Esteban com determinação. — Mesmo que você não seja grata por isso.
A vergonha e o embaraço silenciaram María . Ele abriu a porta para uma senhora de cabelos grisalhos arrumados num penteado discreto.
— Gostaria de me consultar a sós com a doutora — anunciou María  ao perceber a relutância de Esteban em deixar o aposento.
Ela respondeu com honestidade as perguntas da médica. Concluído o exame, a doutora sorriu.
— Acho que a senhora já suspeita da causa. A se­nhora está grávida.
María  empalideceu porque o único pensamento que lhe ocorria no momento era o quanto essa notícia seria indesejável para Esteban.
— Tem certeza?
A médica aquiesceu com um aceno de cabeça.
— Alguns sinais são inconfundíveis.
— Não quero contar já a meu marido — confiden­ciou María .
Seu corpo a surpreendeu. Ela ia ter um filho de Esteban. Talvez um menino de cabelos ruivos com um sorriso irresistível ou uma menina atrevida com glo­riosos olhos de tigresa e a certeza de que dominava o mundo. Sim, ela ia ter um filho de Esteban e, a menos que estivesse muito enganada, ele a odiaria por isso.
Quando Esteban entrou no quarto, ela não pôde olhar para ele enquanto pulava da cama.
— Que está fazendo? — indagou.
— Foi um pequeno enjôo marítimo. Agora estou bem e vou me vestir.
Esteban interceptou-a a meio caminho e colocou-a de volta na cama.
— Não. A doutora disse que você precisa de uma re­feição leve e bastante sono e pretendo assegurar que você siga os conselhos dela. Você vai ter que estar cem por cento em forma para atender minhas expectativas nos próximos dias. Decidi tirar uma folga.
— Mas você nunca tira folga.
— É só me darem uma cama... e uma conexão de PC que posso tirar folga.
María  enrubesceu até a raiz dos cabelos.
— Preciso tirar você de debaixo de minha pele ou morrer tentando fazer isso, cara — murmurou Esteban com ferocidade.
— E então?
No silêncio que se seguiu ela estava nervosa de­mais até para respirar: não queria que nada obscurecesse a resposta dele.
— Vou mandar você de volta para casa e retornar à minha livre e descomplicada vida de solteiro.
Foi preciso uma coragem imensa, mas ela não va­cilou com a resposta.
— Então por que não fazer isso agora?
— Agora ainda estou aproveitando sua companhia. Você é diferente de minhas amantes costumeiras.
— E como devo me sentir? — desferiu María .
— Eu faço você sentir-se incrível, sabe disso — lembrou Esteban, com a frieza impiedosa e a cruel inti­midade de um amante bem consciente da própria ha­bilidade de virá-la do avesso em puro desejo.
María  afundou nos travesseiros e fechou os olhos fatigada.
— Eu disse que não quero nada — sussurrou María  assim que o atendente bajulador se afastou. — Que estamos fazendo aqui?
Esteban olhou para ela com calorosa diversão.
— Você não tem jóias. Está na hora de comprar algumas.
María  esticou-se na ponta dos pés para murmurar com falso deleite.
__ Não é sábio dar idéias para a amante fora do quarto... a brincadeira acaba se desgastando.
— Dessa vez a brincadeira é comigo. Nenhuma caçadora de ouro decente perderia uma oportunidade dessa magnitude.
Ele passou um braço aprisionador em torno da fi­gura frágil e esguia dela para evitar que se afastasse.
— Pense no que acabo de dizer — recomendou Esteban com insistência, num rouco tom de intimidade.— Na verdade, talvez você devesse registrar isso em uma fita: estou admitindo que julguei mal seus moti­vos quatro anos atrás...
María  indagou de um só fôlego:— Está falando sério?
— Nunca falei tão sério. — Tirando vantagem do choque dela, Esteban a fez sentar no banquinho elegante em frente do balcão. — Alguns homens pedem per­dão com flores.
— É verdade? — disse ela sem fôlego, quase inca­paz de pensar direito já que ele a havia tirado de um estado de mágoa diretamente para um de alívio e fe­licidade.
— Alguns nunca pedem desculpas, enquanto ou­tros podem até comprar diamantes, na esperança de que você não espere qualquer ação deles que possa ser sentida como auto-humilhação.
Um sorriso natural brotou nela, assim como o sol no alvorecer, e ela quase riu alto, porque nunca es­queceu do que ele dissera certa vez, que humilhar-se é coisa de camponeses.
Uma hora depois, quando já haviam retornado para a casa de campo, ela chegou ao terraço onde ele saboreava uma bebida. Uma secular figueira gigante fornecia sombra do sufocante sol da Sardenha, que mesmo no final da tarde era ainda muito quente. Sun­tuosos terraços ajardinados interligados por uma es­cadaria conduziam à praia privativa.
— Realmente vale a pena encontrar você fora de casa — provocou ela, girando o pulso para que o re­lógio de platina brilhasse sob um fio de luz que con­seguia atravessar a espessa copa sobre sua cabeça.
Como sempre sintonizado com o olhar dela, Esteban elevou uma sobrancelha, os olhos brilhan­tes cheios de reprovação por ela ter sido inflexível em só aceitar aquele presente.
— Eu queria cobri-la de diamantes.
— Eu pareceria uma tola completa — gracejou ela.
— Nua você pareceria uma deusa paga, María mia. A barriga dela mexeu-se. Bastara Esteban imaginá-la como ninguém mais faria. Pouco à vontade com os derretidos elogios dele, ela murmurou:
— Você ainda não me explicou por que mudou de idéia sobre minha cobiça.
Seu rosto forte ficou tenso.
— Quando você disse em Londres que devolvera a maior parte do dinheiro, depositando-o de volta na conta em que originalmente o recebera, não acreditei. Mas mandei verificar. Esse dinheiro permaneceu in­tocado naquela conta por mais de três anos.
— Mas o que aconteceu com a carta que escrevi para Mike Newton?
— Nunca chegou. Naquela época ele se mudou para um novo escritório. Sua carta deve ter sido en­viada para o endereço antigo e se perdeu. Mike está muito aborrecido com isso. — Sua bela boca parecia cheia de reconhecimento. — Ele sabe que é o elo partido de uma cadeia que causou muitos equívocos entre nós.
María  estava feliz com o fato de que o assunto do dinheiro do acordo estivesse afinal esclarecido.
— Eu nunca quis seu dinheiro, mas recebi, de modo que você dificilmente pode culpar Mike por sua opinião sobre mim.
— Ele não tinha direito de fazer tal julgamento.
— Gostaria de lhe explicar algumas coisas. Quando nos conhecemos, Ângela e eu morávamos numa área perigosa e os amigos dela eram rapazes que achavam divertido realizar furtos em lojas. Ela faltava às aulas e eu estava com dificuldade para controlá-la.
— Não tinha idéia de que sua vida doméstica era tão ruim. Você sempre pareceu tão alegre.
— Viver aborrecida não faz nada melhorar. Seu dinheiro nos proporcionou um novo começo. Alu­guei o apartamento, abri o salão e coloquei Ângela em outro colégio. Todos os problemas que enfrentáva­mos se acabaram, um por um — explicou María . — Eu não precisava trabalhar mais à noite, de modo que Ângela tinha de ficar em casa e estudava. No ano se­guinte, ela ganhou a bolsa de estudos e nunca mais olhou para trás...
— Você deve se orgulhar de si mesma. Gostaria que tivesse sido mais franca comigo na época.
— Naquela época, você não estava interessado em saber.
— Eu não me permitia saber e você pagou o preço disso. Mas então era então, e agora é agora... — En­cerrando a mão dela na sua, Esteban aplicou um beijo demorado, ardente e sensual na palma da mão de María . Depois, começou a desfazer devagarinho o laço do top dela e soltou o gancho do sutiã.
— É dia claro... — murmurou ela.
— Você se choca com tanta facilidade... — sabo­reou ele, comprimindo-lhe as costas contra a pedra aquecida pelo sol e deixando cair sua saída de praia. — Relaxe... eu farei tudo.
Sem mais pudores, ela entregou-se a ele. Ali, con­tra a desgastada mureta de pedra, ele a deixou nua. Ela estava totalmente pronta para ele antes mesmo de Esteban sulcar os pelos claros que coroavam o montículo feminino para provocar a carne intumescida, sensível e secreta escondida abaixo. Ele examinou as profundezas umedecidas pela paixão com uma habilidade carnal que a fez soluçar alto con­tra o próprio desejo ardente e insuportável.
— Não pára... — gritou ela roucamente.
— Adoro quando você perde o controle. Isso me faz querer deixar você mais doida ainda. — Esteban virou-a de costas e a inclinou por sobre a mureta, levantando-a para penetrá-la com seu rígido calor masculino.
Um prazer esmagador deixou-a atordoada. Ele a penetrou até o fim. María  não conseguia respirar de tanta excitação. Essa sensação fez com que ela não se lembrasse mais de nada, a não ser do vaivém excitado do corpo desejoso dele dentro dela. A paixão animal de Esteban lançou-a num frenesi glorioso de liberação.
Consumado o ato, ele tomou nos braços o corpo exausto dela e a levou para o quarto. Ele afastou os ca­belos de María  dos olhos dela, beijou-a e aproximou-a mais de si, o que a lançou num frenesi tal que era como se estivesse tentando resumir toda sua vida a esses poucos instantes, os mais felizes que já vivera.
— Adoro seus seios — confidenciou Esteban pregui­çosamente, levantando-a para colocá-la montada so­bre ele e esticando os braços para segurar, com as mãos em forma de taça e despudorada avaliação mas­culina, aqueles dois montículos atrevidos e firmes.
— Sou capaz de jurar que eles cresceram desde a primeira vez que fizemos amor...
María  abaixou os cílios para esconder o pânico em seus olhos.
— Não que eu esteja me queixando, compreende. — murmurou Esteban com voz rouca. — Já observei seu fraco por chocolate suíço...
Ele pensava que ela estava engordando porque se entupia de xícaras de chocolate! Saiu rápido de cima dele.
Esteban suspirou alto e trouxe-a de volta para cima dele graças ao poder de sua força muito superior.
— Não seja tão sensível. Você tem uma forma in­vejável. Os anjos do céu brigariam por você e eu te­nho satisfação intensa em mantê-la abastecida de chocolate — disse Esteban. — É muito agradável estar com uma mulher que come o que tem vontade.
— Vou para o chuveiro — resmungou ela, livran­do-se do abraço frouxo dele e pulando da cama.
— Como afinal você consegue ter uma auto-estima tão baixa? — Esteban sentou-se para reclamar, cheio de frustração masculina.
— Vi Victória..., ela é bem alta e magra. Ao lado dela eu me chamaria de pequena gordinha! — respondeu María  de maneira abafada.
Com seu magnífico olhar tomado pela raiva, Esteban pulou da cama.
Che ideal Victória satisfazia minhas necessida­des... mas você as desperta. Não consigo ficar mais de uma hora sem botar as mãos em você. Até tirei folga do banco para ficar com você.
As pálpebras dela retinham as lágrimas.
— É só sexo — acusou.
Seguiu-se um silêncio feroz, durante o qual ela es­perou e rezou para que ele quebrasse essa terrível pausa com uma palavra de desacordo.
Esteban olhou fixamente para ela: a expressão pétrea e teimosa de seus brilhantes olhos verdes de cílios negros permaneceu insondável.
A garganta dela doeu tanto de decepção que ficou ferida de verdade. Ele não a contradisse. Ela deveria ter sabido disso, em vez de nutrir a esperança de que ele a contradissesse. Fazia uma semana que ele a trouxera para a Sardenha, para essa fantástica pro­priedade à beira-mar onde eles desfrutaram de com­pleto isolamento e luxo absoluto.
Por sete dias vinham sendo inseparáveis. Foram piqueniques na praia, banhos de mar sob a luz da lua, jantares românticos tarde da noite, sestas langorosas no calor da tarde e longas discussões, sobre todo as­sunto, nas quais raramente concordavam. Ele era uma companhia incrivelmente estimulante e maravi­lhosamente divertida. Para María  vinha sendo um tempo de idílica felicidade, mas também um tempo desafiador, durante o qual ela teria de se habituar com a realidade de que carregava um filho dele.
Do ponto de vista físico ela estava ótima. A náusea diminuíra e só sentia tonturas quando se levantava rápido demais. Mesmo assim, seu corpo já se alterara a ponto de Esteban notar que os seios estavam maiores.
Nessa estada com ele ela estava determinada a não construir castelos no ar. Encarava todos os aspectos do relacionamento deles como eram e não como gos­taria que fossem. Toda manhã, antes de acordá-lo com um beijo numa variedade criativa de jeitos que ele apreciava, lembrava devidamente a si mesma de certos fatos desagradáveis... Ele não a amava. Estava em estado de luxúria e era essa luxúria que fazia dele um amante insaciável. Ela não era sua esposa no sen­tido verdadeiro da palavra porque Esteban uma vez a havia pago para encenar uma cerimônia de casamen­to com ele. Era a esposa que ele comprara, não a que escolhera.
Nesse contexto, a notícia de que ela estava espe­rando um filho dele possivelmente atingiria Esteban como um completo desastre. Era por isso que reluta­va tanto em contar-lhe. Era por isso que mantivera segredo por sete dias inteiros e vivera cada momento precioso como se fosse o último que passaria com ele. Porém, para ser realmente honesta com ele, estava na hora de falar a verdade.
A mesa do jantar foi posta no terraço. Estava muito bonita. Lanternas coloridas de vidro pendiam dos galhos da figueira e velas brilhavam em meio a taças de cristal e porcelana chinesa dourada. No patamar de baixo, encoberta pela vegetação, ela divisava o reflexo do luar na piscina.
Era a villa de Esteban. Às vezes ele só a visitava uma vez por ano e em algumas ocasiões nem isso. Ele tinha uma quantidade enorme de propriedades no mundo inteiro. Não gostava de hotéis. Mesmo aqui, num dos recantos mais remotos da ilha, ele desfruta­va do melhor serviço, que incluía um chef sempre à mão para criar pratos soberbos.
A passos largos, Esteban veio juntar-se a ela.
— Dá uma voltinha — solicitou ele com voz rouca. De maneira um pouco desajeitada, ela atendeu o pedido.
— Você está deliciosa... Considere que tem muita sorte se eu conseguir me segurar até o fim do jantar.
Enquanto os aguçados olhos de Esteban re­pousavam sobre ela, a bonita boca dele fazia uma ob­servação espirituosa:
— Uma baixinha gorda... Não, estou brincando... Um rubor infeliz acendeu a bela pele de María .
Ela queria comprimir os lábios, correr para os braços dele e abraçá-lo com força, segurar a felicidade que ele lhe proporcionara.
— Você tem estado muito taciturna nos últimos dias — continuou Esteban.
Desconcertada, ela dirigiu-lhe um olhar rápido.
— É...eu...
— Uma hora você sorri animadamente e na outra está deprimida, mal-humorada, chorosa — acrescen­tou Esteban. — Isso não é da sua natureza, de modo que suponho que seja síndrome pré-menstrual.
María  titubeou, mas logo firmou-se para levantar-se rígida como uma rocha.

— Tenho uma coisa para lhe contar — anunciou ela.


Escrito por: ~ Vickitoria

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